ATMOSFERA ESPIRITUAL TERRESTE

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ATMOSFERA ESPIRITUAL TERRESTE

ATMOSFERA ESPIRITUAL TERRESTE

por Oliveira Fidelis Filho

A casa onde nasci ficava incrustada na base de uma montanha. Especificamente, o que visita minha memória neste momento, entretanto, é o pequeno leito que conduzia um filete dágua. Por mais de dois mil metros, aquele pequeno mas contínuo fluxo de água, serpenteava no entorno de uma montanha, em inclinação o suficiente para conduzir a água até precipitar em uma caixa, na extremidade da varanda da cozinha de nossa casa. Cresci sob o som e o frescor do precioso líquido que, conduzido em seus últimos metros por uma bica de bambu, mergulhava na caixa dágua suprindo necessidades vitais. A caixa dágua funcionava como micro-represa, com dois compartimentos, de onde saiam dois canos que, em acentuada inclinação, acumulavam pressão e força capazes de movimentarem o moinho e um pequeno gerador. Do moinho advinha o fubá, a canjica e a canjiquinha que sob a acção das mãos de minha mãe sofriam alquimias deliciosas. Do gerador obtínhamos a energia para iluminação da casa. Nos arredores do pequeno reservatório havia uma profusão de folhagens e flores, constantemente regadas pelos incessantes respingos
Aquele filete de água dessedentava, alimentava, refrigerava, iluminava, fazia florescer e embalava nosso sono com relaxante som. Em constante fluxo, proporcionava grandes riquezas. Era de valor incomensurável e tão natural que geralmente passava despercebido. Entretanto, quando por algum motivo o fluxo se interrompia, tudo silenciava; impunha-se uma constrangedora sensação de vazio e o desconforto e as necessidades se multiplicavam.

Vigiar e limpar o leito condutor do precioso veio dágua era imprescindível. Além dos constantes cuidados, uma vez por ano meu pai arregimentava um mutirão para limpar o riozinho. Com umas vinte pessoas manuseando enxadas, foices, enxadões e muita algazarra o trabalho de limpeza se fazia, geralmente, em um único dia.

Quanto mais o tempo passa e menor fica aquele volume de água, mais cresce em mim a gratidão e o encantamento por aquela generosa fonte.

A superfície total da Terra é de 510,1 milhões de Km² e 70,7%, estão cobertos pelas águas; entretanto, o volume total de água doce disponível no planeta é de aproximadamente apenas 0,008%. A água potável é um recurso cada vez mais escasso. Em 2007 a ONU declarou que cerca de 1,1 bilhões de pessoas em todo o mundo não têm acesso a água potável.

Para os índios Carajás, o rio Araguaia é sagrado. Entendem que, como povo, originam-se do fundo das águas dele. Já a população da Índia crê ser preciso mergulhar no rio Ganges, seu rio sagrado, para que se receba a “gota da eternidade”.

Para as populações afro-descendentes, vários de seus orixás estão ligados à ideia da água, de fonte, como Iemanjá, a rainha do mar.

Para os cristãos, ela está presente nos rituais, desde a água benta ate a água do baptismo. O livro sagrado cristão está encharcado de água. Para a Bíblia, não há paraíso sem água; o Jardim do Éden ou a Cidade Santa são percebidos entrecortados de abundantes rios. Para Jesus, disponibilizar ou não água para quem tem sede determinará, também, a dimensão celestial ou infernal na qual habitaremos.

Além de limitada disponibilidade de água doce, grande quantidade dela encontra-se poluída, contaminada; uma realidade que para mim transcende a questão ambiental.

Creio que poluição é uma projecção de nossos pensamentos, sentimentos que resultam em actos poluídos. Estamos sujos por dentro e por isso sujamos por fora. A terra está doente porque a mente e o coração da humanidade encontram-se enfermos. A pureza da água e do ar e a harmonia da terra dependem da mudança da natureza interna de cada ser humano.

Cada um de nós acumula em volta de si fluidos bons e maus, conforme o pensamento, o sentimento e a acção. Milhares de pessoas jogam, diariamente, na atmosfera espiritual terrestre, milhões de vibrações maléficas, doentias. Das notícias densas e sombrias que a mídia disponibiliza, alimentamos não raras vezes os nossos pensamentos e sentimentos. Tal energia intoxicante é ingerida, ruminada, acrescida e devolvida à atmosfera espiritual da Terra. Aos menos avisados, o efeito deste tipo de poluição manifesta-se violentamente, na forma de opressão psíquica, desespero, depressão, neuroses profundas e insanidade mental e em incontáveis patologias.

Não teremos ar puro se não estiver limpo o espírito; não teremos rios limpos se não tivermos os corações puros. Antes de se investir em ecologia é preciso investir em eco-espiritualidade pois para salvar o mundo precisamos reencontrar a alma.

Para que desaguasse na varanda da cozinha a fonte dependia de um canal limpo. Buracos, desmoronamentos, tempestades, entulhos e actos maldosos bloqueavam o livre fluir das águas que alegrava, energizava e alimentava a nossa família.

Em cada um existe uma fonte de vida, fonte de água viva. Esta essência divina está pronta para jorrar abundantemente, em todas as dimensões da existência. Em muitos ela já transborda tornando a vida florida, frutífera, intumescida de esperança. Em outros, permanece ainda bloqueada pelo medo, amargura, incredulidade, ingratidão, desânimo, ódio e falta de disposição de servir.

Faz-se necessário reencontrar a fonte e deixá-la fluir. Para tal encontro com a Fonte carecemos de mergulhar em nós mesmos, nadar no silêncio da mente, deixar-nos encharcar pela Água da Vida disponível na meditação sagrada e remover os obstáculos da oração.

“Há um rio, cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo”(Salmos 46.4). O rio que conduz a essência divina já existe dentro de cada um de nós; leva em suas águas a nossa natureza sagrada. Cabe a cada um desnudar-se de todo orgulho, ganância e acúmulo de maldade; banhar-se em suas águas puras e limpas e renascer para uma nova vida, para uma nova Terra, com dimensão celeste.

Hoje é um bom dia para se encontrar a fonte, a essência divina que nos habita; começar a despoluir o Planeta iniciando pelos pensamentos e sentimentos, estendendo a limpeza para palavras e actos.

por Oliveira Fidelis Filho

fidelisf@hotmail.com
Teólogo Espiritualista, Psicanalista Integrativo, Administrador, Escritor e Conferencista, Compositor e Cantor.

E-mail: fidelisf@hotmail.com
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2 Comments

Elisabete Milheiro

Fevereiro 10, 2011at 9:49 pm

Olá Oliveira,
 
Queria mostrar a minha gratidão por estas palavras que tocaram o meu coração.
Gostaria de partilhar a minha visão: estamos numa época Maravilhosa, as consciências estão a despertar; cada dia que passa são iluminados e libertos mais corações, aumentando a consciência cósmica, e por sua vez, dando lugar a que outros mais despertem!
Nós somos, cada um de nós, responsáveis pelo que “Vemos” á nossa volta! Mudemos então os nossos “óculos” escuros, para uns que tenham umas lentes mais transparentes, para que possamos ver com mais clareza, a beleza de tudo o que nos circunda!
Chegará o dia em que não precisaremos sequer de usar óculos, pois a LUZ não mais ferirá os nossos olhos, então despertos!
Até lá, há que fazer um esforço consciente, mas tranquilo, para nos libertarmos das amarras dos nossos conceitos e crenças, que são esses que definem a nossa realidade!
Há que abrir a mente a novas possibilidades!
Há que abrir o coração a sentir o que nos envolve!
Mas de certo que caminhamos para o melhor de nós mesmos!
Obrigado!

Vânia Pereira

Fevereiro 11, 2011at 7:45 pm

Simplesmente lindo, a forma como nos mostra a importância e a urgência em mudar mos interiormente é de facto admirável.São pessoas como o Oliveira que tornam os rios mais puros, as plantas mais verdes e o ceu mais azul… que milhares de pessoas leiam cada palavra deste artigo  tal como o Oliveira escreveu, com o coração.Obrigado!
 

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Sim, é possivel criar uma vida nova!!!