A felicidade é uma condição natural

 

Gostaria de começar com uma hipótese que o leitor terá de a examinar com cuidado. Talvez discorde. De qualquer modo, defendo, nestas páginas, que a condição natural do ser humano é ser feliz. Tenho, a certeza de que todos nós fomos criados por Deus para sermos felizes, neste mundo e também no outro, eternamente. A lógica, para mim, é a seguinte: se uma pessoa está sempre infeliz, alguma coisa está mal. Alguma coisa falta. Claro que não é por nossa culpa ou por nossa escolha. Ainda assim, continuo a pensar, que alguma coisa falta. Vou pedir-lhe que seja paciente comigo enquanto tento explicar a minha hipótese nas páginas seguintes.

 

O desejo inato ou uma história de frustração

Desejo ou frustração?

 

Acredito que todos nos sentimos um desejo persistente e inato: queremos ser felizes! No entanto, infelizmente, fomos frustrados neste desejo algumas vezes. Os nossos, sonhos de felicidade não se concretizaram. Como eu, também o leitor se lembra das ocasiões em que criou, expectativas apenas para as ver dar em nada. Quando crianças, por exemplo, sonhámos com uma bicicleta à nossa espera na árvore de Natal e imaginámos que a vida seria sempre maravilhosa depois disso. Ate que numa manhã de Natal, lá estava a bicicleta, nova e reluzente, ao pé da árvore. Ficámos em êxtase. Mas com o passar dos dias, a pintura começou a descascar, o guiador entortou-se e o eixo começou a ranger. O sonho acabou lentamente, quase sem dor. Mas, então, já tínhamos começado a sonhar outros sonhos. Um a um, todos pareciam ter a duração de um meteoro e depois morriam. A nossa esperança de alcançar uma felicidade duradora acabou por perder-se ao longo do caminho.

 

Expectativa e felicidade

 

É lógico que as expectativas têm muito a ver com a nossa felicidade. Esta é uma das lições de vida mais difíceis de aprender. Na medida, que esperamos que a nossa felicidade venha de coisas externas ou de outras pessoas, os nossos sonhos estarão condenados à morte. A verdadeira fórmula é esta: F = TI.

A felicidade é um trabalho interior. Muitos de nós somos românticos incuráveis. E, o que é uma pena, a esperança romântica não morre facilmente. Continuamos à sonhar sonhos irreais. Mitificamos a realidade com expectativas coloridas. Construímos castelos no ar. É como se a vida e a felicidade fossem o segredo de um cofre. Quando descobrimos a combinação correta, tudo está resolvido. Mas a frustração estará sempre presente enquanto pusermos a nossa felicidade nas coisas externas e nas mãos de outras pessoas. Há alguns anos, um advogado especialista em divórcios afirmou qua a maioria das separações deve se a expectativas românticas. João imagina que estar casado com Maria vai ser o paraíso na terra. Chama-lhe «Querida», «meu amor», e canta -lhe, canções de amor. Ela é a mulher dos seus sonhos. Mas logo que os sinos do casamento param de tocar, surge a verdade: ela tem um génio difícil, aumenta de peso, deixa a comida queimar, põe rolos no cabelo, às vezes tem mau hálito e odores desagradáveis no corpo. João começa a interrogar-se silenciosamente:’ como é que entrou numa situação como esta? Também começa a pensar que Maria o enganou. Ele investiu toda a sua felicidade nesse relacionamento e aparentemente perdeu.

Por outro lado, antes do casamento, o coração de Maria bate mais forte todas as vezes que pensa no João. Vai ser tão maravilhoso estar casada com ele! Mais tarde, serão três no paraíso: João, ela e o filho que virá. Mas entretanto, começam a cinza dos cigarros, o vício dos programas desportivos da TV, as roupas espalhadas pela casa, o dentífrico sem tampa,  a maçaneta da porta que ele  prometeu consertar e ainda está quebrada, pequenas mas dolorosas negligências. Como história, o seu príncipe encantado transforma-se num sapo. Maria chora muito e procura um terapeuta de casais. João seduziu a, prometendo-lhe um mar de rosas; mas, depois do casamento, ela vive um verdadeiro inferno.

Cinquenta por cento dos casamentos termina em divórcio. Sessenta e cinco pôr cento dos segundos casamentos termina da mesma maneira traumática. Há sempre desilusão quando esperamos que a nossa felicidade venha de alguém ou de alguma coisa. Estas expectativas são como um piquenique terminando à chuva. Não existe paraíso, nem uma pessoa perfeita para nós. No início do dia, as expectativas parecem-nos deslumbrantes, mas são logo engolidas pela escuridão e deceção da noite. O nosso erro começa quando esperamos que outras pessoas e coisas externas assumam responsabilizar-se pela nossa felicidade. Vi, em tempos, uma gravura, em que uma mulher enorme, ao lado de um marido minúsculo, exigia: “Faz-me Feliz!”. Era uma caricatura, feita para provocar o riso. Era uma distorção da realidade, e por isso, engraçada.

Na verdade, ninguém pode fazer-nos felizes ou infelizes.

 do livro- “Felicidade: um trabalho interior” de Jonh Powell, sj

Fonte: http://stress.solucaoperfeita.com/felicidade-e-uma-condicao-natural/