AS CÉLULAS SÃO SERES HUMANOS EM MINIATURA

Ao contrário das expectativas, aquele curso de histologia acabou sendo o mais estimulante e intelectualmente profundo da minha carreira académica. Como tinha liberdade para desenvolver o conteúdo da maneira que desejasse, resolvi colocar em prática uma técnica que tinha em mente havia anos. Sempre achei que comparar as células a “seres humanos em miniatura” poderia facilitar muito a compreensão dos alunos sobre sua fisiologia e comportamento.

Montei então um esboço do curso com base nessa ideia e o resultado pareceu bem interessante. Muito provavelmente despertaria em meus alunos o mesmo entusiasmo que eu tinha em relação à ciência quando criança.

Apesar de não gostar do aspecto burocrático da vida académica, com todas aquelas reuniões e festas chatas, toda a vez que entrava num laboratório para fazer pesquisas sentia-me exatamente como aos sete anos de idade, feliz e entusiasmado.

A ideia de comparar células a seres humanos se desenvolvia cada vez mais na minha mente, pois após tantos anos observando-as por meio do microscópio, sentia-me como um grão de areia diante de uma forma de vida tão complexa e imponente, embora anatomicamente simples, exatamente como uma placa de Petri.

Você provavelmente aprendeu na escola alguns conceitos básicos sobre os componentes de uma célula: o núcleo, que contém material genético, a mitocôndria, que produz energia, a membrana que a reveste e o citoplasma, que fica entre eles. Mas dentro de cada uma dessas partes aparentemente tão simples há um vasto universo.

A estrutura das células envolve tecnologia tão avançada que os cientistas ainda não conseguem compreendê-la totalmente. A minha técnica de compará-las a seres humanos certamente pareceria heresia para a maioria dos biólogos. Tentar explicar a natureza de um ser não humano utilizando como referência o comportamento humano é chamado antropormofismo.

Os “verdadeiros’ cientistas consideram o antropormofismo um verdadeiro pecado mortal e criticam os cientistas que o utilizam.

Mas naquele momento eu tinha um bom motivo para quebrar as regras. Os biólogos estudam e compreendem os processos da natureza por meio da observação e do desenvolvimento de hipóteses sobre o seu funcionamento e, para se certificar de que estão no caminho certo, realizam experiências. Portanto, criar hipóteses e experiências requer mecanismos de “raciocínio” sobre como as células ou outros organismos vivem.

O que os cientistas ainda não perceberam é que, a partir do momento que aplicam soluções e pontos de vista “humanos” para desvendar os mistérios da vida estão praticando antropormofismo. Não importa quanto se discuta o assunto, a ciência e a biologia possuem características humanas.

Pessoalmente, acredito que a crítica ao antropormofismo ainda seja remanescente da Idade Média, quando os líderes religiosos negavam qualquer relação entre os seres humanos e as outras espécies criadas por Deus.

Entendo que é um exagero comparar objectos como lâmpadas, rádios ou ferramentas a seres humanos, mas não vejo problema quando se trata de organismos vivos. Somos todos organismos multicelulares e, portanto, temos muito em comum em termos de comportamento, se comparados às nossas células.

Também entendo que é necessário um tipo diferente de percepção quando se trata de estabelecer paralelos desse tipo. Historicamente, nossas crenças judaico-cristãs nos levaram a acreditar que nós somos seres inteligentes e criados por meio de um processo diferente e totalmente distinto daqueles utilizados para plantas e animais.

Isso nos faz sentir superiores em relação a todas as formas de vida menos inteligentes, especialmente os organismos que se encontram em posições menos elevadas da cadeia evolutiva.

Mas esse conceito está totalmente fora da realidade. Quando observamos outros seres humanos como entidades individuais ou consideramos nós mesmos organismos únicos ao vermos a nossa imagem refletida num espelho, estamos corretos de certa forma, ao menos em nível de observação. Mas quando nos reduzimos ao tamanho de uma célula para analisar o nosso próprio corpo sob a perspectiva celular passamos a ver o mundo sob uma nova perspectiva.

Não nos vemos mais como uma entidade única e sim como uma comunidade de mais de 50 trilhões de células.

Enquanto preparava as minhas aulas para aquele novo curso, uma enciclopédia que eu usava quando criança me vinha à mente com frequência. A parte de ciências tinha uma ilustração de sete páginas transparentes e sobrepostas mostrando o corpo humano em detalhes. A primeira mostrava a figura de um homem nu. A segunda mostrava o mesmo corpo, porém sem a pele, com os detalhes da musculatura. A cada página viam-se detalhes diferentes, como o esqueleto, o cérebro, a estrutura nervosa, as veias e os órgãos internos.

Adaptei a ideia ao meu curso no Caribe e imaginei as mesmas transparências mostrando a estrutura celular. A maior parte dos componentes da estrutura de uma célula é chamada de organela, seus “órgãos em miniatura” que ficam dentro de uma substância gelatinosa chamada citoplasma. As organelas equivalem aos tecidos e órgãos do corpo humano. Possuem um núcleo, que é sua maior organela, uma mitocôndria e o complexo golgiense, além de vacúolos.

Os cursos tradicionais apresentam primeiro essa estrutura celular; depois passam aos tecidos e órgãos do corpo humano, mas fiz algo diferente: integrei as duas partes do curso mostrando as semelhanças entre os corpos humano e celular.

Ensinei aos meus alunos que os mecanismos bioquímicos utilizados pelos sistemas de organela celular são basicamente os mesmos utilizados pelo nosso corpo. Embora sejamos compostos de trilhões de células, enfatizei que não há sequer uma “nova” função nos nossos corpos que não esteja presente também nos das células.

Cada célula eucariótica, isto é, que contém um núcleo, possui uma estrutura funcional equivalente aos nossos sistemas nervoso, digestivo, respiratório, excretor, endocrinológico, muscular, esquelético, circulatório, tegumentar (pele), reprodutivo e até mesmo algo parecido com nosso sistema imunológico porém mais primitivo, que utiliza uma família de proteínas semelhantes a anticorpos do tipo “ubiquitina”.

Expliquei também que cada célula é um ser inteligente e que sobrevive por conta própria, algo que os cientistas já demonstraram retirando células individuais do corpo para mantê-las em cultura separada.

Assim como eu havia descoberto intuitivamente durante a minha infância, essas células inteligentes têm vontade própria e um propósito de vida. Procuram ambientes que sejam adequados à sua sobrevivência e evitam todos os que possam ser tóxicos e/ou hostis.

Da mesma maneira que nós, humanos, fazemos, analisam as centenas de estímulos que recebem do microambiente que habitam para selecionar as respostas comportamentais mais adequadas e garantir a sua sobrevivência.

As células também são capazes de aprender com as experiências que vivenciam em seu ambiente e de criar uma espécie de memória que é passada aos seus descendentes. Por exemplo: quando o vírus do sarampo infecta uma criança, as suas células ainda não amadurecidas são colocadas em ação para criar um anticorpo de proteína protetor e combatê-lo. Nesse processo, as células criam um novo gene que servirá de padrão para a fabricação de anticorpos contra o sarampo.

O primeiro passo para gerar um gene de anticorpos ocorre no núcleo das células imunológicas imaturas. Nos seus próprios genes há um grande número de segmentos de DNA que contêm códigos de fragmentos moldados de proteínas. Recombinando e montando aleatoriamente esses segmentos, as células imunes criam uma vasta gama de genes que formam uma proteína única de anticorpos.

Então, quando uma célula imune imatura produz uma proteína de anticorpos que seja um complemento físico “semelhante” ao do vírus do sarampo, aquela célula é ativada.

Células ativadas utilizam um mecanismo muito interessante chamado “maturação de afinidade”, que lhes permite “ajustar” de maneira muito precisa o formato da sua proteína de anticorpos, para que ela seja um complemento perfeito para vírus como o do sarampo (Li et al., 2003; Adams et al., 2003). Por meio de um processo chamado “hipermutação somática”, as células imunes ativadas fabricam centenas de cópias de seu gene de anticorpo. Mas cada nova versão do gene é levemente modificada e contém um formato diferente da proteína de anticorpo. A célula seleciona a variante de genes que melhor se adapta àquela necessidade de anticorpos.

Essa versão selecionada do gene também passa por vários ciclos de hipermutação somática para que a forma do anticorpo seja esculpida a ponto de se tornar o complemento físico “perfeito” do vírus (Wu et al., 2003; Blanden e Steele, 1998; Diza e Casali, 2002; Gearhart, 2002).

Quando o anticorpo esculpido se une ao vírus, desabilita-o e o marca para ser destruído, protegendo a criança do sarampo. As células criam então um “arquivo” das informações genéticas desse anticorpo para que todas as vezes que o organismo for invadido pelo vírus do sarampo elas possam responder imediatamente. O novo gene de anticorpos também pode ser passado a todas as novas gerações em seu processo de divisão.

Assim, elas não apenas “aprendem” sobre o vírus do sarampo como criam um “arquivo” a ser herdado e propagado entre a sua prole.

Este magnífico processo de engenharia genética é de extrema importância, pois representa um mecanismo de “inteligência” inata que permite às células se desenvolver (Steele et al., 1998).

 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora