“É o ambiente, sua besta”

“É o ambiente, sua besta”

É O AMBIENTE, SUA BESTA

Jamais me esquecerei de algo que vim a saber em 1967, quando aprendi a clonar células-tronco na faculdade. Levei décadas para perceber quanto aquela informação tão simples poderia me ajudar na minha carreira e na minha vida pessoal. O grande cientista Irv Konigsberg, meu professor e mentor, foi um dos primeiros biólogos celulares a dominar a arte da clonagem de células-tronco. Ele explicou-nos que quando há algo de errado com as células que estudamos devemos analisar primeiro o ambiente em que elas se encontram e não apenas as células para descobrir a causa do
problema.

Claro, o meu professor não era tão rude quanto James Carville, responsável pela campanha de Bill Clinton na época, e que elegeu a frase “é a economia, sua besta” como mantra da campanha para a eleição de 1992. Mas os biólogos celulares bem que poderiam ter colocado placas com o aviso “é o ambiente, sua besta” na parede dos seus laboratórios de estudo, exatamente como fizeram os partidários de Clinton. Na época não percebi, mas com o tempo comecei a ver que se trata de uma questão-chave para compreendermos a essência da vida.

Sempre me lembrava do conselho de Irv. Toda a vez que estabelecia um ambiente saudável para a cultura de células elas se tornavam mais resistentes. Mas se algo no ambiente não era favorável, elas logo se enfraqueciam. Bastava fazer alguns ajustes para tornar o ambiente mais propício e elas voltavam a se revitalizar. A maioria dos biólogos, porém, não sabia desse detalhe sobre técnicas de cultura de células e passaram a dar ainda menos importância ao fato após a revelação de
Watson e Crick sobre o código genético do DNA.

Até mesmo Charles Darwin admitiu, no final da sua vida, que a sua teoria evolucionista havia subestimado o papel do meio ambiente. Numa carta que escreveu para Moritz Wagner em 1876, ele declara (Darwin, F 1888): “Na minha opinião, o maior erro que cometi foi não dar a devida atenção à ação do ambiente sobre os seres, como no caso dos alimentos, clima etc. independentemente do fator seleção natural… Quando escrevi A origem das espécies, e mesmo nos anos seguintes, jamais percebi as evidências da ação direta do meio ambiente; hoje elas são muito claras para mim”.

Mas os cientistas que seguem a teoria de Darwin continuam a cometer o mesmo erro. Na verdade, o problema dessa indiferença dos cientistas em relação ao ambiente é a ênfase exagerada da “natureza” sob o aspecto do determinismo genético, ou seja, a crença de que os genes “controlam” a biologia. Isso custou ao governo centenas de dólares em pesquisas, como mostrarei mais adiante, porém o mais importante é que essa teoria mudou a nossa maneira de pensar sobre a vida.

Se alguém acredita que os genes controlam a sua vida e que são programados desde o momento da concepção, tem uma boa desculpa para se considerar uma vítima da hereditariedade. “Não tenho culpa de ter maus hábitos. Não posso mudar
a minha tendência de deixar tudo para a última hora… São as minhas características genéticas!”

Desde que se iniciou a era da genética, temos sido levados a crer que não há como lutar contra aquilo que fomos programados para ser. O mundo está cheio de pessoas com medo de que os seus genes possam se voltar contra elas.

Imagine o número de indivíduos que se consideram verdadeiras bombas-relógio, com medo de que o cancrose desenvolva no seu organismo a qualquer momento só porque isso aconteceu com os seus pais, irmãos ou tios. Outros atribuem a sua
falta de saúde não apenas a uma combinação de fatores mentais, físicos, emocionais e espirituais, mas também a falhas no
mecanismo bioquímico de seu organismo.

Os seus filhos não se comportam bem? A primeira reação dos médicos é corrigir o seu “desequilíbrio químico” por meio de medicamentos em vez de tentar descobrir o que há de errado com seu corpo, mente ou espírito.

Claro, algumas doenças como coreia de Huntington, talassemia e fibrose cística são de origem genética. Mas distúrbios desse tipo afetam menos de dois por cento da população. A maioria das pessoas vem a este mundo com uma carga genética capaz de lhes proporcionar uma vida muito feliz e saudável.

Doenças que ainda não têm cura como a diabetes, problemas cardíacos e o cancro podem destruir a vida de muitos, mas não são resultado de um único gene e sim de complexas interações entre genes múltiplos e fatores ambientais.

O que pensar então das manchetes sensacionalistas anunciando a descoberta de um gene para cada doença, de depressão a
esquizofrenia? Mas leia esses artigos com calma e você vai descobrir outra verdade por trás deles. Os cientistas associaram diversos genes a diferentes doenças e características, mas ainda não chegaram à conclusão de que um simples gene possa ser a fonte delas.

A confusão ocorre porque a mídia deturpa o sentido de dois termos muito importantes: correlação e causa. Uma coisa é dizer que um fator está relacionado a uma doença, outra é dizer que ele é a causa dela, pois isso envolve uma ação direta.

Se eu lhe mostrar um molho de chaves e disser que uma delas “controla” o meu carro, você vai achar que faz todo o sentido, pois sabe que é necessário usar uma chave para dar partida num automóvel. Mas será que a chave realmente “controla” o carro?

Se fosse assim, não se poderia deixar a chave no carro porque ela iria querer passear sozinha com ele quando você não estivesse por perto. A chave está “relacionada” ao controle do carro; a pessoa que a tem nas mãos tem controle sobre
ele. Da mesma maneira, determinados genes estão relacionados ao comportamento de um organismo e às suas características. No entanto, permanecem em estado passivo a menos que uma força externa aja sobre eles.

Mas que força é essa que pode ativar os genes? Uma resposta muito interessante para essa questão foi publicada num ensaio de 1990 intitulado “As metáforas, o papel dos genes e o desenvolvimento”, de H. F. Nijhout (Nijhout, 1990). O autor apresenta evidências de que os genes que controlam a biologia se repetem com tanta frequência e por períodos tão longos de tempo que os cientistas se esqueceram de que se trata apenas de uma hipótese, não de verdade comprovada.

Na verdade, a ideia de que os genes controlam a biologia é apenas uma suposição jamais comprovada e até questionada pelas descobertas científicas mais recentes. Nijhout afirma que o controle genético se tornou uma metáfora na nossa
sociedade. Queremos acreditar que os engenheiros geneticistas são os novos mágicos da medicina e que vão curar as doenças com a mesma maestria de génios como Einstein ou Mozart.

Mas metáforas não combinam com verdades científicas. Nijhout apresenta a verdade: “Quando determinada característica de um gene se faz necessária, o ambiente gera um sinal que o ativa. O gene não se manifesta por si só”. Ou seja, quando se trata de controle genético o que fala mais alto “é o ambiente, sua besta”.

 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora

SEGUINDO O CAMINHO DAS CÉLULAS

SEGUINDO O CAMINHO DAS CÉLULAS

SEGUINDO O CAMINHO DAS CÉLULAS

Lecionando na escola de medicina percebi que os alunos deste tipo de curso conseguem ser mais competitivos e sarcásticos que os de direito. Seguem literalmente a teoria de Darwin em sua luta para ser os “melhores” formandos após quatro anos de sangrenta luta na faculdade. Essa busca desesperada pelas melhores notas e por uma carreira brilhante, mesmo que para isso seja necessário derrubar ou humilhar os colegas, é a expressão literal do modelo darwiniano, mas para mim sempre pareceu o oposto do maior objetivo da medicina, que é a paixão pela cura.

Os meus estereótipos, porém, sobre os alunos de medicina caíram por terra durante o período em que vivi naquela ilha. Após a minha apresentação do curso, em que os chamei à luta, deixaram de se comportar como alunos convencionais de medicina. Trocaram a competitividade agressiva pela união de esforços e se transformaram em uma equipe disposta a sobreviver bravamente àquele semestre.

Os mais capazes ajudavam os mais fracos e, como consequência, todos se fortaleceram. Era uma harmonia surpreendente e bela de se observar.

A recompensa final foi um final digno de Hollywood. Apliquei exatamente o mesmo teste final que usava na Universidade de Wisconsin e o resultado não mostrou diferença alguma entre esses alunos “rejeitados” e seus colegas “elitistas” dos Estados Unidos.

Muitos chegaram a entrar em contato comigo algum tempo depois para me contar que quando voltaram para casa e começaram a trabalhar com os alunos que haviam cursado universidades norte-americanas descobriram que tinham até mais conhecimentos e domínio dos princípios que regem a vida das células e dos organismos do que eles.

Claro, fiquei extasiado ao ver que os meus alunos haviam realizado um verdadeiro milagre académico. Mas levei alguns anos para perceber como eles conseguiram. Na época, achei que o formato do curso é que havia ajudado. Ainda acredito que comparar a biologia das células à biologia humana é a melhor maneira de apresentar o conteúdo. Mas hoje, que me considero ainda mais maluco, no melhor estilo doutor Dolittle, vejo que boa parte do sucesso dos meus alunos ocorreu porque eles modificaram a sua atitude e  passaram a agir de maneira diferente da dos seus colegas nos Estados Unidos.

Em vez de se compararem aos estudantes de medicina de lá, resolveram adotar o princípio das células, que se unem para viver melhor e evoluir. Jamais lhes disse  que adotassem esse comportamento, até porque eu mesmo ainda seguia o estilo e
muitos dos dogmas da ciência tradicional. Mas fico feliz ao perceber que eles seguiram intuitivamente nessa direção assistindo ás minhas aulas sobre a habilidade das células de se unir de maneira cooperativa para formar organismos mais complexos e altamente eficazes.

Outro motivo para o sucesso deles que hoje vejo mais claramente é o fato de eu não ter enaltecido apenas as células durante o curso, mas os alunos também. Sentiram-se motivados ao ouvir que tinham tanta capacidade quanto qualquer estudante de medicina que estivesse fazendo o curso nos Estados Unidos. Vou mostrar nos próximos capítulos que muitos de nós vivemos de maneira limitada não por falta de alternativas, mas por acreditar que elas não existem.

Bem, hoje posso afirmar que já enxergo algumas delas. Basta dizer que, após quatro meses vivendo no paraíso e lecionando de uma maneira que me permitiu ter uma noção ainda mais ampla da vida das células e das lições que elas podem nos ensinar, comecei a deixar de lado a poeira de derrotismo da genética, da programação paterna e dos conceitos darwinistas de que somente os melhores sobrevivem, para abraçar definitivamente a nova biologia.

 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora

AS ORIGENS DA VIDA

AS ORIGENS DA VIDA

AS ORIGENS DA VIDA: CÉLULAS INTELIGENTES TORNAM-SE CADA VEZ MAIS INTELIGENTES

Não deveria ser uma surpresa para nós o fato de as células serem tão inteligentes. Os organismos unicelulares foram a primeira forma de vida deste planeta. Somente 600 milhões de anos mais tarde, de acordo com análises, é que os fósseis surgiram na Terra.

Ou seja, durante 2,75 bilhões de anos da história da Terra os únicos habitantes vivos foram os organismos unicelulares como bactérias, algas e protozoários semelhantes a amebas.

Então, há 750 milhões de anos, esses organismos descobriram como evoluir e se tornar ainda mais inteligentes: surgiram os primeiros organismos multicelulares (plantas e animais).

No início eram apenas comunidades esparsas ou “colónias” de organismos unicelulares, constituídas de centenas de células. Mas as vantagens evolucionárias de viver em comunidade fizeram com que, em pouco tempo, as colónias se transformassem em organizações de milhões, bilhões ou mesmo trilhões de células individuais interagindo entre si.

Embora cada célula tenha dimensões microscópicas, o tamanho dessas comunidades pode variar de algo minúsculo, mas visível, a uma estrutura monolítica. Os biólogos classificam essas comunidades de acordo com sua estrutura observada pelo olho humano. Embora pareçam ser entidades únicas (como um rato, um cão ou um ser humano) são, na verdade,
associações organizadas de milhões e trilhões de células.

A exigência evolucionária de que fossem criadas mais comunidades celulares é meramente um reflexo da imperiosa necessidade biológica de sobrevivência. Quanto mais consciência um organismo tem do ambiente que o cerca, melhores são as suas chances de sobreviver. Quando as células se agrupam, aumentam exponencialmente a sua consciência do meio ambiente. Assim, se para cada uma delas dermos um valor X, toda colónia de organismos terá uma consciência potencial de pelo menos X vezes o número de células que a compõem.

Para sobreviver em densidade tão alta, as células tiveram de criar ambientes estruturais próprios. Essas sofisticadas comunidades subdividem a sua carga de trabalho com mais precisão e eficácia que as nossas maiores empresas e corporações mundiais.

 

 

 

O método mais eficiente ainda é ter indivíduos especializados para cada tarefa. No desenvolvimento dos animais e das plantas, as células adquirem as funções específicas ainda na fase embrionária. O processo de especialização citológica permite que se desenvolvam determinados tecidos e órgãos do corpo. Com o passar do tempo, esse padrão de
“diferenciação”, como o da distribuição da carga de trabalho entre os membros da comunidade, por exemplo, passa a fazer parte dos genes de cada célula da comunidade, aumentando a eficácia do organismo e sua habilidade de sobreviver.

Em organismos maiores, apenas uma pequena porcentagem das células é responsável pela leitura e resposta aos estímulos do ambiente. Esse papel é desenvolvido por grupos de células especializadas que formam os tecidos e órgãos do sistema nervoso.

A função do sistema nervoso é captar as informações do ambiente e coordenar o comportamento de todas as outras células em sua vasta comunidade.

A divisão de trabalho entre as células oferece ainda outra vantagem quando se trata de sobrevivência: reduz a sua longevidade. Um indivíduo consome menos que dois. Se compararmos, por exemplo, o custo da construção de apartamentos de dois dormitórios ao de apartamentos de apenas um dormitório haverá uma grande diferença, especialmente quando se trata de condomínios grandes, de 100 unidades. Para sobreviver, as células consomem certa
quantidade de energia. Portanto, quanto menos for gasto, maiores serão as chances de sobrevivência do grupo e melhor será sua qualidade de vida.

 

 

Henry Ford analisou as vantagens técnicas do esforço conjunto e as utilizou para criar o conceito de linha de montagem para a fabricação de carros. Antes de Ford, uma equipe de funcionários levava de uma a duas semanas para produzir um único automóvel.

Ele organizou a sua fábrica de modo que cada funcionário fosse responsável por uma tarefa específica. Posicionou todos em fila na esteira de produção e foi passando as peças de um especialista para o outro. O conceito de especialização de tarefas se mostrou tão eficaz que a indústria de Ford conseguia produzir um automóvel em apenas 90 minutos.

Mas, infelizmente, “nos esquecemos” desse conceito de cooperação, tão necessário para a evolução, quando Charles Darwin propôs uma teoria radicalmente diferente sobre o surgimento da vida. Há 150 anos ele chegou à conclusão de que os organismos vivem em uma perpétua “luta pela sobrevivência”.

Para Darwin, luta e violência são partes naturais da natureza animal (humana) e também a “força básica” do desenvolvimento evolucionário. No capítulo final de A origem das espécies por meio da seleção natural
ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida, Darwin descreve aquilo que chama de “inevitável luta pela sobrevivência” e enfatiza que a evolução se dá pela “guerra da natureza, da escassez à morte”. Portanto, a partir dessa teoria, a evolução se dá de maneira aleatória e temos um mundo cheio de pequenas batalhas sangrentas e sem sentido em nome da sobrevivência ou, segundo a descrição poética de Tennyson, “nas mandíbulas da morte”.

 

 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora

AS CÉLULAS SÃO SERES HUMANOS EM MINIATURA

AS CÉLULAS SÃO SERES HUMANOS EM MINIATURA

 

AS CÉLULAS SÃO SERES HUMANOS EM MINIATURA

Ao contrário das expectativas, aquele curso de histologia acabou sendo o mais estimulante e intelectualmente profundo da minha carreira académica. Como tinha liberdade para desenvolver o conteúdo da maneira que desejasse, resolvi colocar em prática uma técnica que tinha em mente havia anos. Sempre achei que comparar as células a “seres humanos em miniatura” poderia facilitar muito a compreensão dos alunos sobre sua fisiologia e comportamento.

Montei então um esboço do curso com base nessa ideia e o resultado pareceu bem interessante. Muito provavelmente despertaria em meus alunos o mesmo entusiasmo que eu tinha em relação à ciência quando criança.

Apesar de não gostar do aspecto burocrático da vida académica, com todas aquelas reuniões e festas chatas, toda a vez que entrava num laboratório para fazer pesquisas sentia-me exatamente como aos sete anos de idade, feliz e entusiasmado.

A ideia de comparar células a seres humanos se desenvolvia cada vez mais na minha mente, pois após tantos anos observando-as por meio do microscópio, sentia-me como um grão de areia diante de uma forma de vida tão complexa e imponente, embora anatomicamente simples, exatamente como uma placa de Petri.

Você provavelmente aprendeu na escola alguns conceitos básicos sobre os componentes de uma célula: o núcleo, que contém material genético, a mitocôndria, que produz energia, a membrana que a reveste e o citoplasma, que fica entre eles. Mas dentro de cada uma dessas partes aparentemente tão simples há um vasto universo.

A estrutura das células envolve tecnologia tão avançada que os cientistas ainda não conseguem compreendê-la totalmente. A minha técnica de compará-las a seres humanos certamente pareceria heresia para a maioria dos biólogos. Tentar explicar a natureza de um ser não humano utilizando como referência o comportamento humano é chamado antropormofismo.

Os “verdadeiros’ cientistas consideram o antropormofismo um verdadeiro pecado mortal e criticam os cientistas que o utilizam.

Mas naquele momento eu tinha um bom motivo para quebrar as regras. Os biólogos estudam e compreendem os processos da natureza por meio da observação e do desenvolvimento de hipóteses sobre o seu funcionamento e, para se certificar de que estão no caminho certo, realizam experiências. Portanto, criar hipóteses e experiências requer mecanismos de “raciocínio” sobre como as células ou outros organismos vivem.

O que os cientistas ainda não perceberam é que, a partir do momento que aplicam soluções e pontos de vista “humanos” para desvendar os mistérios da vida estão praticando antropormofismo. Não importa quanto se discuta o assunto, a ciência e a biologia possuem características humanas.

Pessoalmente, acredito que a crítica ao antropormofismo ainda seja remanescente da Idade Média, quando os líderes religiosos negavam qualquer relação entre os seres humanos e as outras espécies criadas por Deus.

Entendo que é um exagero comparar objectos como lâmpadas, rádios ou ferramentas a seres humanos, mas não vejo problema quando se trata de organismos vivos. Somos todos organismos multicelulares e, portanto, temos muito em comum em termos de comportamento, se comparados às nossas células.

Também entendo que é necessário um tipo diferente de percepção quando se trata de estabelecer paralelos desse tipo. Historicamente, nossas crenças judaico-cristãs nos levaram a acreditar que nós somos seres inteligentes e criados por meio de um processo diferente e totalmente distinto daqueles utilizados para plantas e animais.

Isso nos faz sentir superiores em relação a todas as formas de vida menos inteligentes, especialmente os organismos que se encontram em posições menos elevadas da cadeia evolutiva.

Mas esse conceito está totalmente fora da realidade. Quando observamos outros seres humanos como entidades individuais ou consideramos nós mesmos organismos únicos ao vermos a nossa imagem refletida num espelho, estamos corretos de certa forma, ao menos em nível de observação. Mas quando nos reduzimos ao tamanho de uma célula para analisar o nosso próprio corpo sob a perspectiva celular passamos a ver o mundo sob uma nova perspectiva.

Não nos vemos mais como uma entidade única e sim como uma comunidade de mais de 50 trilhões de células.

Enquanto preparava as minhas aulas para aquele novo curso, uma enciclopédia que eu usava quando criança me vinha à mente com frequência. A parte de ciências tinha uma ilustração de sete páginas transparentes e sobrepostas mostrando o corpo humano em detalhes. A primeira mostrava a figura de um homem nu. A segunda mostrava o mesmo corpo, porém sem a pele, com os detalhes da musculatura. A cada página viam-se detalhes diferentes, como o esqueleto, o cérebro, a estrutura nervosa, as veias e os órgãos internos.

Adaptei a ideia ao meu curso no Caribe e imaginei as mesmas transparências mostrando a estrutura celular. A maior parte dos componentes da estrutura de uma célula é chamada de organela, seus “órgãos em miniatura” que ficam dentro de uma substância gelatinosa chamada citoplasma. As organelas equivalem aos tecidos e órgãos do corpo humano. Possuem um núcleo, que é sua maior organela, uma mitocôndria e o complexo golgiense, além de vacúolos.

Os cursos tradicionais apresentam primeiro essa estrutura celular; depois passam aos tecidos e órgãos do corpo humano, mas fiz algo diferente: integrei as duas partes do curso mostrando as semelhanças entre os corpos humano e celular.

Ensinei aos meus alunos que os mecanismos bioquímicos utilizados pelos sistemas de organela celular são basicamente os mesmos utilizados pelo nosso corpo. Embora sejamos compostos de trilhões de células, enfatizei que não há sequer uma “nova” função nos nossos corpos que não esteja presente também nos das células.

Cada célula eucariótica, isto é, que contém um núcleo, possui uma estrutura funcional equivalente aos nossos sistemas nervoso, digestivo, respiratório, excretor, endocrinológico, muscular, esquelético, circulatório, tegumentar (pele), reprodutivo e até mesmo algo parecido com nosso sistema imunológico porém mais primitivo, que utiliza uma família de proteínas semelhantes a anticorpos do tipo “ubiquitina”.

Expliquei também que cada célula é um ser inteligente e que sobrevive por conta própria, algo que os cientistas já demonstraram retirando células individuais do corpo para mantê-las em cultura separada.

Assim como eu havia descoberto intuitivamente durante a minha infância, essas células inteligentes têm vontade própria e um propósito de vida. Procuram ambientes que sejam adequados à sua sobrevivência e evitam todos os que possam ser tóxicos e/ou hostis.

Da mesma maneira que nós, humanos, fazemos, analisam as centenas de estímulos que recebem do microambiente que habitam para selecionar as respostas comportamentais mais adequadas e garantir a sua sobrevivência.

As células também são capazes de aprender com as experiências que vivenciam em seu ambiente e de criar uma espécie de memória que é passada aos seus descendentes. Por exemplo: quando o vírus do sarampo infecta uma criança, as suas células ainda não amadurecidas são colocadas em ação para criar um anticorpo de proteína protetor e combatê-lo. Nesse processo, as células criam um novo gene que servirá de padrão para a fabricação de anticorpos contra o sarampo.

O primeiro passo para gerar um gene de anticorpos ocorre no núcleo das células imunológicas imaturas. Nos seus próprios genes há um grande número de segmentos de DNA que contêm códigos de fragmentos moldados de proteínas. Recombinando e montando aleatoriamente esses segmentos, as células imunes criam uma vasta gama de genes que formam uma proteína única de anticorpos.

Então, quando uma célula imune imatura produz uma proteína de anticorpos que seja um complemento físico “semelhante” ao do vírus do sarampo, aquela célula é ativada.

Células ativadas utilizam um mecanismo muito interessante chamado “maturação de afinidade”, que lhes permite “ajustar” de maneira muito precisa o formato da sua proteína de anticorpos, para que ela seja um complemento perfeito para vírus como o do sarampo (Li et al., 2003; Adams et al., 2003). Por meio de um processo chamado “hipermutação somática”, as células imunes ativadas fabricam centenas de cópias de seu gene de anticorpo. Mas cada nova versão do gene é levemente modificada e contém um formato diferente da proteína de anticorpo. A célula seleciona a variante de genes que melhor se adapta àquela necessidade de anticorpos.

Essa versão selecionada do gene também passa por vários ciclos de hipermutação somática para que a forma do anticorpo seja esculpida a ponto de se tornar o complemento físico “perfeito” do vírus (Wu et al., 2003; Blanden e Steele, 1998; Diza e Casali, 2002; Gearhart, 2002).

Quando o anticorpo esculpido se une ao vírus, desabilita-o e o marca para ser destruído, protegendo a criança do sarampo. As células criam então um “arquivo” das informações genéticas desse anticorpo para que todas as vezes que o organismo for invadido pelo vírus do sarampo elas possam responder imediatamente. O novo gene de anticorpos também pode ser passado a todas as novas gerações em seu processo de divisão.

Assim, elas não apenas “aprendem” sobre o vírus do sarampo como criam um “arquivo” a ser herdado e propagado entre a sua prole.

Este magnífico processo de engenharia genética é de extrema importância, pois representa um mecanismo de “inteligência” inata que permite às células se desenvolver (Steele et al., 1998).

 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora

A INTELIGÊNCIA DAS CÉLULAS E DOS ALUNOS

A INTELIGÊNCIA DAS CÉLULAS E DOS ALUNOS

LIÇÕES DA PLACA DE PETRI (2):

A INTELIGÊNCIA DAS CÉLULAS E DOS ALUNOS

 

PROBLEMAS NO PARAÍSO

 

No meu segundo dia no Caribe conheci os meus alunos, cem ansiosos estudantes de medicina, e percebi que nem todas as pessoas viam aquela ilha como eu, um refúgio pacífico e tranquilo no meio do oceano. Para aqueles estudantes, Monserrat era a última chance de transformar o sonho de se tornarem médicos em realidade.

Eram quase todos norte-americanos, da costa leste, com idade e etnia variadas. Um deles, aposentado e com 67 anos de idade, estava ansioso para aprender coisas novas. A formação deles também era bem heterogénea: a maioria tinha cursado apenas o colegial, mas também havia professores, contadores, músicos, uma enfermeira e até um contrabandista.

Apesar de todas as diferenças, tinham duas características em comum. A primeira é que haviam sido eliminados pelo competitivo processo seletivo das escolas de medicina dos Estados Unidos. A segunda era que tinham intenção real de se tornarem médicos e não desperdiçariam aquela chance de obter seu diploma. A maioria tinha economizado durante anos para pagar aquele curso e as despesas de morar em um país estrangeiro. Muitos estavam se aventurando sozinhos fora de casa pela primeira vez, longe da família e dos amigos, e também boa parte vivia em condições precárias naquele campus.

Mas, apesar de todos os obstáculos e contratempos, nada os fazia mudar de ideia. Estavam decididos a se tornarem médicos. Pelo menos era o que parecia quando iniciaram o curso.

Antes de mim tinham tido três professores de histologia/biologia celular. O primeiro abandonou os alunos porque teve de resolver problemas pessoais e simplesmente foi embora três semanas depois de se iniciarem as aulas. A diretoria encontrou outro para substituí-lo, mas este também não pôde continuar porque ficou doente.

Para que os alunos não ficassem sem aulas, um professor de outra matéria lia com eles trechos dos livros em sala de aula. Claro, isso não era produtivo e só os entediava, mas pelo menos fazia com que cumprissem a carga horária de palestras, um pré-requisito das bancas examinadoras para a prática da medicina nos Estados Unidos.

Então, pela quarta vez no mesmo semestre, os alunos tinham um novo professor. No primeiro dia, falei rapidamente sobre minha formação académica e minhas expectativas para o curso. Deixei bem claro que, mesmo estando em um país estrangeiro, meu nível de exigência para com eles seria o mesmo que tinha para com meus alunos em Wisconsin. Teriam de passar pela mesma bancada académica, não importava onde estivessem estudando. Tirei então uma pilha de exames de minha pasta e distribuí entre eles, explicando que se tratava de um teste de conhecimentos gerais. Já estávamos no meio do semestre e por isso deveriam ter base suficiente para fazê-lo.

Eram 20 questões de um teste de histologia do primeiro trimestre da Universidade de Wisconsin.

Durante os primeiros dez minutos de prova a sala ficou em silêncio mortal. Depois, alguns alunos começaram a suar e a bufar, e o desespero se espalhou pela sala mais rápido do que o vírus ebola. Ao final dos 20 minutos de prazo que eu havia estipulado, todos estavam em pânico.

Quando disse “tempo esgotado” houve uma chuva de gemidos e reclamações. A pontuação mais alta foi de dez respostas corretas. A maioria não acertou mais de sete. E o resto acertou duas ou três por mera sorte.

Todos me olhavam chocados. Perceberam claramente o que os esperava. Metade do semestre havia se passado, mas teriam de recomeçar tudo outra vez, desde o início. Como a maioria ali já tinha sido reprovada em outros cursos, conhecia bem o protocolo.

Seus olhares pareciam os daqueles filhotes de foca prestes a serem abatidos, que vemos nas fotos do Greenpeace.

Meu coração disparou. Imaginei que provavelmente a maresia e o ar daquela ilha estivessem me tornando um pouco mais generoso.

Sem pensar duas vezes, disse a eles que faria tudo o que estivesse ao meu alcance para que estivessem preparados para os exames finais, desde que também se esforçassem para isso. Percebendo minha sinceridade, eles pareceram se acalmar um pouco.

Sentia-me como um treinador preparando o time para a disputa final. Expliquei a eles que não eram menos inteligentes que os alunos que tive nos Estados Unidos. A única diferença era que ainda não estavam, como eles, acostumados a estudar muitas horas por dia e a memorizar grandes quantidades de material em pouco tempo, uma característica essencial para alunos de faculdade.

Expliquei também que histologia e biologia celular não são cursos de teoria muito complexa. A natureza segue princípios muito simples, fáceis de assimilar. Prometi que, em vez de pedir que memorizassem tudo, explicaria passo a passo o funcionamento das células para que entendessem os princípios básicos e complementaria a prática de laboratório com palestras sobre teoria no período da noite.

Pareceram mais animados após essa explicação e saíram da sala determinados a não deixar que mais aquele obstáculo os impedisse de atingir seus objetivos.

Quando todos saíram e parei para pensar no tamanho da responsabilidade que havia assumido, meu ânimo diminuiu. A maioria daqueles alunos não tinha conhecimento prévio suficiente para um curso de medicina, mesmo os mais capacitados. Percebi que a experiência académica naquela ilha poderia acabar sendo uma grande perda de tempo e desperdício de esforços tanto para mim quanto para eles. Comecei a achar que lecionar em Wisconsin era bem mais fácil.

Eu dava apenas oito das cinquenta aulas do curso de histologia/biologia celular. O corpo académico era bem maior e havia vários professores para cada matéria. Claro, tinha de conhecer o conteúdo de todas elas, pois também era responsável pelo acompanhamento das aulas de laboratório e respondia às questões dos alunos. Mas conhecer a matéria e ter de apresentar todo o conteúdo não é a mesma coisa!

Tinha a sexta-feira e o final de semana para pensar na situação. Se isso tivesse acontecido na época em que eu estava em Wisconsin, provavelmente teria recusado o convite para lecionar a matéria.

Mas quando me sentei naquela tarde perto da piscina, para assistir ao maravilhoso pôr-do-sol do Caribe, minha angústia se transformou em alegria. Fiquei contente porque, afinal, pela primeira vez em toda a minha carreira de professor, seria responsável por todas as matérias do curso de biologia, sem ter de me adaptar ao estilo ou às restrições de um corpo académico. 

 

(2) PETRI – Recipiente circular raso, de vidro ou plástico, usado para fazer cultura de microorganismos. (Nota da Tradutora) 

 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora

A MENTE CONSCIENTE

A MENTE CONSCIENTE

 

A MENTE CONSCIENTE ESTA MUITO ALEM DA MERA PROGRAMAÇÃO GENÉTICA

Ao escrever este livro, sinto-me como se estivesse desenhando uma linha na areia, que divide a história da humanidade. De um lado está o neodarwinismo, que dispõe a vida como uma eterna batalha entre robôs bioquímicos, e do outro está a “nova biologia”, que a considera uma jornada de cooperação entre indivíduos de vontade própria que podem se programar para criar uma existência cheia de felicidade. Ao cruzar essa linha, passamos a entender claramente os conceitos da nova biologia, encerrando definitivamente a polémica sobre aquilo que é natural em nós ou que herdamos de nossos pais.

Percebemos que a mente consciente está muito além da mera programação genética. Creio que neste momento vivência-mos uma mudança profunda e pragmática em nosso modo de ver a vida, algo semelhante ao que aconteceu quando o conceito de que a Terra era redonda substituiu todas as crenças da época.

Aos leigos que estiverem preocupados imaginando que este livro é muito técnico, aviso que podem ficar tranquilos. Mesmo em minha fase mais académica, quando vivia de terno e gravata em intermináveis reuniões, jamais deixei de fazer algo que adoro: lecionar. E minha fase pós-académica me permitiu colocar em prática toda a minha experiência de professor, pois viajei pelo mundo apresentando os princípios da nova biologia a centenas de pessoas. Tive de adaptar o meu conhecimento académico e utilizar uma linguagem acessível a todos com exemplos e ilustrações muito claros. São os que utilizei neste livro.

O Capítulo 1 é sobre a “inteligência” das células e quanto elas podem nos ensinar a respeito da nossa mente e do nosso corpo. O Capítulo 2 mostra as evidências científicas de que os genes não controlam os seres vivos e apresenta as fantásticas descobertas da epigenética, um novo campo da biologia que desvenda os mistérios de como o ambiente (natureza) pode influenciar o comportamento das células sem modificar o código genético. É uma nova face da ciência, que revela mais detalhes sobre o complexo sistema e estrutura das doenças, incluindo o cancro e a esquizofrenia.

O Capítulo 3 é sobre a membrana ou “pele” das células. Você já deve ter ouvido falar que o núcleo das células contém DNA, mas talvez ainda não saiba sobre a membrana que as reveste. A ciência hoje pesquisa e revela detalhes sobre algo que eu já havia concluído 20 anos atrás: que a membrana é o verdadeiro cérebro de toda a atividade celular.

O Capítulo 4 trata das descobertas da física quântica e seu impacto sobre a compreensão e o tratamento das doenças. Mas, infelizmente, a medicina tradicional ainda não a incorporou às suas pesquisas ou mesmo à sua formação académica, o que representa grandes perdas tanto para a ciência quanto para a humanidade.

No Capítulo 5, explico porque dei a este livro o nome de A biologia da crença. Os pensamentos positivos têm um efeito profundo sobre o nosso comportamento e sobre os nossos genes, mas somente se estiverem em harmonia com a nossa programação subconsciente e o mesmo vale para os pensamentos negativos. Quando entendemos como as crenças positivas e negativas controlam nossa vida, podemos modificar esses padrões e passar a ter mais saúde e felicidade.

O Capítulo 6 mostra que tanto as células quanto as pessoas precisam crescer e se desenvolver e como o medo pode
impedir esse processo.

O Capítulo 7 é sobre a paternidade consciente. Como pais, precisamos entender o papel que desempenhamos na programação das crenças dos nossos filhos e o impacto destas crenças em sua vida. Recomendo a leitura deste capítulo mesmo a quem não tem filhos, pois um dia todos fomos crianças e entender esse mecanismo é crucial mesmo agora que somos adultos.

No Epílogo, explico como a nova biologia me fez perceber a importância da integração espírito-ciência e como isso modificou radicalmente a visão agnóstica e científica que eu tinha a respeito do mundo.

Você está pronto para usar sua mente consciente e ter mais saúde, felicidade e amor sem a necessidade de recursos da engenharia genética ou de medicamentos? Está pronto para abrir sua mente a uma realidade diferente daquela que foi criada pelos modelos médicos, considerando o corpo humano uma simples máquina bioquímica? Não se preocupe. Não estou apresentando um produto novo ou uma nova religião.

É apenas um convite para que você deixe de lado por alguns instantes todas as crenças impostas pela mídia e pela ciência tradicional para vislumbrar o universo que se abre à sua frente com as descobertas da nova ciência.

 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora