Category Archives: Biologia da Crença

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“É o ambiente, sua besta”

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É O AMBIENTE, SUA BESTA

Jamais me esquecerei de algo que vim a saber em 1967, quando aprendi a clonar células-tronco na faculdade. Levei décadas para perceber quanto aquela informação tão simples poderia me ajudar na minha carreira e na minha vida pessoal. O grande cientista Irv Konigsberg, meu professor e mentor, foi um dos primeiros biólogos celulares a dominar a arte da clonagem de células-tronco. Ele explicou-nos que quando há algo de errado com as células que estudamos devemos analisar primeiro o ambiente em que elas se encontram e não apenas as células para descobrir a causa do
problema.

Claro, o meu professor não era tão rude quanto James Carville, responsável pela campanha de Bill Clinton na época, e que elegeu a frase “é a economia, sua besta” como mantra da campanha para a eleição de 1992. Mas os biólogos celulares bem que poderiam ter colocado placas com o aviso “é o ambiente, sua besta” na parede dos seus laboratórios de estudo, exatamente como fizeram os partidários de Clinton. Na época não percebi, mas com o tempo comecei a ver que se trata de uma questão-chave para compreendermos a essência da vida.

Sempre me lembrava do conselho de Irv. Toda a vez que estabelecia um ambiente saudável para a cultura de células elas se tornavam mais resistentes. Mas se algo no ambiente não era favorável, elas logo se enfraqueciam. Bastava fazer alguns ajustes para tornar o ambiente mais propício e elas voltavam a se revitalizar. A maioria dos biólogos, porém, não sabia desse detalhe sobre técnicas de cultura de células e passaram a dar ainda menos importância ao fato após a revelação de
Watson e Crick sobre o código genético do DNA.

Até mesmo Charles Darwin admitiu, no final da sua vida, que a sua teoria evolucionista havia subestimado o papel do meio ambiente. Numa carta que escreveu para Moritz Wagner em 1876, ele declara (Darwin, F 1888): “Na minha opinião, o maior erro que cometi foi não dar a devida atenção à ação do ambiente sobre os seres, como no caso dos alimentos, clima etc. independentemente do fator seleção natural… Quando escrevi A origem das espécies, e mesmo nos anos seguintes, jamais percebi as evidências da ação direta do meio ambiente; hoje elas são muito claras para mim”.

Mas os cientistas que seguem a teoria de Darwin continuam a cometer o mesmo erro. Na verdade, o problema dessa indiferença dos cientistas em relação ao ambiente é a ênfase exagerada da “natureza” sob o aspecto do determinismo genético, ou seja, a crença de que os genes “controlam” a biologia. Isso custou ao governo centenas de dólares em pesquisas, como mostrarei mais adiante, porém o mais importante é que essa teoria mudou a nossa maneira de pensar sobre a vida.

Se alguém acredita que os genes controlam a sua vida e que são programados desde o momento da concepção, tem uma boa desculpa para se considerar uma vítima da hereditariedade. “Não tenho culpa de ter maus hábitos. Não posso mudar
a minha tendência de deixar tudo para a última hora… São as minhas características genéticas!”

Desde que se iniciou a era da genética, temos sido levados a crer que não há como lutar contra aquilo que fomos programados para ser. O mundo está cheio de pessoas com medo de que os seus genes possam se voltar contra elas.

Imagine o número de indivíduos que se consideram verdadeiras bombas-relógio, com medo de que o cancrose desenvolva no seu organismo a qualquer momento só porque isso aconteceu com os seus pais, irmãos ou tios. Outros atribuem a sua
falta de saúde não apenas a uma combinação de fatores mentais, físicos, emocionais e espirituais, mas também a falhas no
mecanismo bioquímico de seu organismo.

Os seus filhos não se comportam bem? A primeira reação dos médicos é corrigir o seu “desequilíbrio químico” por meio de medicamentos em vez de tentar descobrir o que há de errado com seu corpo, mente ou espírito.

Claro, algumas doenças como coreia de Huntington, talassemia e fibrose cística são de origem genética. Mas distúrbios desse tipo afetam menos de dois por cento da população. A maioria das pessoas vem a este mundo com uma carga genética capaz de lhes proporcionar uma vida muito feliz e saudável.

Doenças que ainda não têm cura como a diabetes, problemas cardíacos e o cancro podem destruir a vida de muitos, mas não são resultado de um único gene e sim de complexas interações entre genes múltiplos e fatores ambientais.

O que pensar então das manchetes sensacionalistas anunciando a descoberta de um gene para cada doença, de depressão a
esquizofrenia? Mas leia esses artigos com calma e você vai descobrir outra verdade por trás deles. Os cientistas associaram diversos genes a diferentes doenças e características, mas ainda não chegaram à conclusão de que um simples gene possa ser a fonte delas.

A confusão ocorre porque a mídia deturpa o sentido de dois termos muito importantes: correlação e causa. Uma coisa é dizer que um fator está relacionado a uma doença, outra é dizer que ele é a causa dela, pois isso envolve uma ação direta.

Se eu lhe mostrar um molho de chaves e disser que uma delas “controla” o meu carro, você vai achar que faz todo o sentido, pois sabe que é necessário usar uma chave para dar partida num automóvel. Mas será que a chave realmente “controla” o carro?

Se fosse assim, não se poderia deixar a chave no carro porque ela iria querer passear sozinha com ele quando você não estivesse por perto. A chave está “relacionada” ao controle do carro; a pessoa que a tem nas mãos tem controle sobre
ele. Da mesma maneira, determinados genes estão relacionados ao comportamento de um organismo e às suas características. No entanto, permanecem em estado passivo a menos que uma força externa aja sobre eles.

Mas que força é essa que pode ativar os genes? Uma resposta muito interessante para essa questão foi publicada num ensaio de 1990 intitulado “As metáforas, o papel dos genes e o desenvolvimento”, de H. F. Nijhout (Nijhout, 1990). O autor apresenta evidências de que os genes que controlam a biologia se repetem com tanta frequência e por períodos tão longos de tempo que os cientistas se esqueceram de que se trata apenas de uma hipótese, não de verdade comprovada.

Na verdade, a ideia de que os genes controlam a biologia é apenas uma suposição jamais comprovada e até questionada pelas descobertas científicas mais recentes. Nijhout afirma que o controle genético se tornou uma metáfora na nossa
sociedade. Queremos acreditar que os engenheiros geneticistas são os novos mágicos da medicina e que vão curar as doenças com a mesma maestria de génios como Einstein ou Mozart.

Mas metáforas não combinam com verdades científicas. Nijhout apresenta a verdade: “Quando determinada característica de um gene se faz necessária, o ambiente gera um sinal que o ativa. O gene não se manifesta por si só”. Ou seja, quando se trata de controle genético o que fala mais alto “é o ambiente, sua besta”.

 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora


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SEGUINDO O CAMINHO DAS CÉLULAS

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SEGUINDO O CAMINHO DAS CÉLULAS

Lecionando na escola de medicina percebi que os alunos deste tipo de curso conseguem ser mais competitivos e sarcásticos que os de direito. Seguem literalmente a teoria de Darwin em sua luta para ser os “melhores” formandos após quatro anos de sangrenta luta na faculdade. Essa busca desesperada pelas melhores notas e por uma carreira brilhante, mesmo que para isso seja necessário derrubar ou humilhar os colegas, é a expressão literal do modelo darwiniano, mas para mim sempre pareceu o oposto do maior objetivo da medicina, que é a paixão pela cura.

Os meus estereótipos, porém, sobre os alunos de medicina caíram por terra durante o período em que vivi naquela ilha. Após a minha apresentação do curso, em que os chamei à luta, deixaram de se comportar como alunos convencionais de medicina. Trocaram a competitividade agressiva pela união de esforços e se transformaram em uma equipe disposta a sobreviver bravamente àquele semestre.

Os mais capazes ajudavam os mais fracos e, como consequência, todos se fortaleceram. Era uma harmonia surpreendente e bela de se observar.

A recompensa final foi um final digno de Hollywood. Apliquei exatamente o mesmo teste final que usava na Universidade de Wisconsin e o resultado não mostrou diferença alguma entre esses alunos “rejeitados” e seus colegas “elitistas” dos Estados Unidos.

Muitos chegaram a entrar em contato comigo algum tempo depois para me contar que quando voltaram para casa e começaram a trabalhar com os alunos que haviam cursado universidades norte-americanas descobriram que tinham até mais conhecimentos e domínio dos princípios que regem a vida das células e dos organismos do que eles.

Claro, fiquei extasiado ao ver que os meus alunos haviam realizado um verdadeiro milagre académico. Mas levei alguns anos para perceber como eles conseguiram. Na época, achei que o formato do curso é que havia ajudado. Ainda acredito que comparar a biologia das células à biologia humana é a melhor maneira de apresentar o conteúdo. Mas hoje, que me considero ainda mais maluco, no melhor estilo doutor Dolittle, vejo que boa parte do sucesso dos meus alunos ocorreu porque eles modificaram a sua atitude e  passaram a agir de maneira diferente da dos seus colegas nos Estados Unidos.

Em vez de se compararem aos estudantes de medicina de lá, resolveram adotar o princípio das células, que se unem para viver melhor e evoluir. Jamais lhes disse  que adotassem esse comportamento, até porque eu mesmo ainda seguia o estilo e
muitos dos dogmas da ciência tradicional. Mas fico feliz ao perceber que eles seguiram intuitivamente nessa direção assistindo ás minhas aulas sobre a habilidade das células de se unir de maneira cooperativa para formar organismos mais complexos e altamente eficazes.

Outro motivo para o sucesso deles que hoje vejo mais claramente é o fato de eu não ter enaltecido apenas as células durante o curso, mas os alunos também. Sentiram-se motivados ao ouvir que tinham tanta capacidade quanto qualquer estudante de medicina que estivesse fazendo o curso nos Estados Unidos. Vou mostrar nos próximos capítulos que muitos de nós vivemos de maneira limitada não por falta de alternativas, mas por acreditar que elas não existem.

Bem, hoje posso afirmar que já enxergo algumas delas. Basta dizer que, após quatro meses vivendo no paraíso e lecionando de uma maneira que me permitiu ter uma noção ainda mais ampla da vida das células e das lições que elas podem nos ensinar, comecei a deixar de lado a poeira de derrotismo da genética, da programação paterna e dos conceitos darwinistas de que somente os melhores sobrevivem, para abraçar definitivamente a nova biologia.

 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora


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AS ORIGENS DA VIDA

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AS ORIGENS DA VIDA: CÉLULAS INTELIGENTES TORNAM-SE CADA VEZ MAIS INTELIGENTES

Não deveria ser uma surpresa para nós o fato de as células serem tão inteligentes. Os organismos unicelulares foram a primeira forma de vida deste planeta. Somente 600 milhões de anos mais tarde, de acordo com análises, é que os fósseis surgiram na Terra.

Ou seja, durante 2,75 bilhões de anos da história da Terra os únicos habitantes vivos foram os organismos unicelulares como bactérias, algas e protozoários semelhantes a amebas.

Então, há 750 milhões de anos, esses organismos descobriram como evoluir e se tornar ainda mais inteligentes: surgiram os primeiros organismos multicelulares (plantas e animais).

No início eram apenas comunidades esparsas ou “colónias” de organismos unicelulares, constituídas de centenas de células. Mas as vantagens evolucionárias de viver em comunidade fizeram com que, em pouco tempo, as colónias se transformassem em organizações de milhões, bilhões ou mesmo trilhões de células individuais interagindo entre si.

Embora cada célula tenha dimensões microscópicas, o tamanho dessas comunidades pode variar de algo minúsculo, mas visível, a uma estrutura monolítica. Os biólogos classificam essas comunidades de acordo com sua estrutura observada pelo olho humano. Embora pareçam ser entidades únicas (como um rato, um cão ou um ser humano) são, na verdade,
associações organizadas de milhões e trilhões de células.

A exigência evolucionária de que fossem criadas mais comunidades celulares é meramente um reflexo da imperiosa necessidade biológica de sobrevivência. Quanto mais consciência um organismo tem do ambiente que o cerca, melhores são as suas chances de sobreviver. Quando as células se agrupam, aumentam exponencialmente a sua consciência do meio ambiente. Assim, se para cada uma delas dermos um valor X, toda colónia de organismos terá uma consciência potencial de pelo menos X vezes o número de células que a compõem.

Para sobreviver em densidade tão alta, as células tiveram de criar ambientes estruturais próprios. Essas sofisticadas comunidades subdividem a sua carga de trabalho com mais precisão e eficácia que as nossas maiores empresas e corporações mundiais.

 

 

 

O método mais eficiente ainda é ter indivíduos especializados para cada tarefa. No desenvolvimento dos animais e das plantas, as células adquirem as funções específicas ainda na fase embrionária. O processo de especialização citológica permite que se desenvolvam determinados tecidos e órgãos do corpo. Com o passar do tempo, esse padrão de
“diferenciação”, como o da distribuição da carga de trabalho entre os membros da comunidade, por exemplo, passa a fazer parte dos genes de cada célula da comunidade, aumentando a eficácia do organismo e sua habilidade de sobreviver.

Em organismos maiores, apenas uma pequena porcentagem das células é responsável pela leitura e resposta aos estímulos do ambiente. Esse papel é desenvolvido por grupos de células especializadas que formam os tecidos e órgãos do sistema nervoso.

A função do sistema nervoso é captar as informações do ambiente e coordenar o comportamento de todas as outras células em sua vasta comunidade.

A divisão de trabalho entre as células oferece ainda outra vantagem quando se trata de sobrevivência: reduz a sua longevidade. Um indivíduo consome menos que dois. Se compararmos, por exemplo, o custo da construção de apartamentos de dois dormitórios ao de apartamentos de apenas um dormitório haverá uma grande diferença, especialmente quando se trata de condomínios grandes, de 100 unidades. Para sobreviver, as células consomem certa
quantidade de energia. Portanto, quanto menos for gasto, maiores serão as chances de sobrevivência do grupo e melhor será sua qualidade de vida.

 

 

Henry Ford analisou as vantagens técnicas do esforço conjunto e as utilizou para criar o conceito de linha de montagem para a fabricação de carros. Antes de Ford, uma equipe de funcionários levava de uma a duas semanas para produzir um único automóvel.

Ele organizou a sua fábrica de modo que cada funcionário fosse responsável por uma tarefa específica. Posicionou todos em fila na esteira de produção e foi passando as peças de um especialista para o outro. O conceito de especialização de tarefas se mostrou tão eficaz que a indústria de Ford conseguia produzir um automóvel em apenas 90 minutos.

Mas, infelizmente, “nos esquecemos” desse conceito de cooperação, tão necessário para a evolução, quando Charles Darwin propôs uma teoria radicalmente diferente sobre o surgimento da vida. Há 150 anos ele chegou à conclusão de que os organismos vivem em uma perpétua “luta pela sobrevivência”.

Para Darwin, luta e violência são partes naturais da natureza animal (humana) e também a “força básica” do desenvolvimento evolucionário. No capítulo final de A origem das espécies por meio da seleção natural
ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida, Darwin descreve aquilo que chama de “inevitável luta pela sobrevivência” e enfatiza que a evolução se dá pela “guerra da natureza, da escassez à morte”. Portanto, a partir dessa teoria, a evolução se dá de maneira aleatória e temos um mundo cheio de pequenas batalhas sangrentas e sem sentido em nome da sobrevivência ou, segundo a descrição poética de Tennyson, “nas mandíbulas da morte”.

 

 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora


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AS CÉLULAS SÃO SERES HUMANOS EM MINIATURA

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AS CÉLULAS SÃO SERES HUMANOS EM MINIATURA

Ao contrário das expectativas, aquele curso de histologia acabou sendo o mais estimulante e intelectualmente profundo da minha carreira académica. Como tinha liberdade para desenvolver o conteúdo da maneira que desejasse, resolvi colocar em prática uma técnica que tinha em mente havia anos. Sempre achei que comparar as células a “seres humanos em miniatura” poderia facilitar muito a compreensão dos alunos sobre sua fisiologia e comportamento.

Montei então um esboço do curso com base nessa ideia e o resultado pareceu bem interessante. Muito provavelmente despertaria em meus alunos o mesmo entusiasmo que eu tinha em relação à ciência quando criança.

Apesar de não gostar do aspecto burocrático da vida académica, com todas aquelas reuniões e festas chatas, toda a vez que entrava num laboratório para fazer pesquisas sentia-me exatamente como aos sete anos de idade, feliz e entusiasmado.

A ideia de comparar células a seres humanos se desenvolvia cada vez mais na minha mente, pois após tantos anos observando-as por meio do microscópio, sentia-me como um grão de areia diante de uma forma de vida tão complexa e imponente, embora anatomicamente simples, exatamente como uma placa de Petri.

Você provavelmente aprendeu na escola alguns conceitos básicos sobre os componentes de uma célula: o núcleo, que contém material genético, a mitocôndria, que produz energia, a membrana que a reveste e o citoplasma, que fica entre eles. Mas dentro de cada uma dessas partes aparentemente tão simples há um vasto universo.

A estrutura das células envolve tecnologia tão avançada que os cientistas ainda não conseguem compreendê-la totalmente. A minha técnica de compará-las a seres humanos certamente pareceria heresia para a maioria dos biólogos. Tentar explicar a natureza de um ser não humano utilizando como referência o comportamento humano é chamado antropormofismo.

Os “verdadeiros’ cientistas consideram o antropormofismo um verdadeiro pecado mortal e criticam os cientistas que o utilizam.

Mas naquele momento eu tinha um bom motivo para quebrar as regras. Os biólogos estudam e compreendem os processos da natureza por meio da observação e do desenvolvimento de hipóteses sobre o seu funcionamento e, para se certificar de que estão no caminho certo, realizam experiências. Portanto, criar hipóteses e experiências requer mecanismos de “raciocínio” sobre como as células ou outros organismos vivem.

O que os cientistas ainda não perceberam é que, a partir do momento que aplicam soluções e pontos de vista “humanos” para desvendar os mistérios da vida estão praticando antropormofismo. Não importa quanto se discuta o assunto, a ciência e a biologia possuem características humanas.

Pessoalmente, acredito que a crítica ao antropormofismo ainda seja remanescente da Idade Média, quando os líderes religiosos negavam qualquer relação entre os seres humanos e as outras espécies criadas por Deus.

Entendo que é um exagero comparar objectos como lâmpadas, rádios ou ferramentas a seres humanos, mas não vejo problema quando se trata de organismos vivos. Somos todos organismos multicelulares e, portanto, temos muito em comum em termos de comportamento, se comparados às nossas células.

Também entendo que é necessário um tipo diferente de percepção quando se trata de estabelecer paralelos desse tipo. Historicamente, nossas crenças judaico-cristãs nos levaram a acreditar que nós somos seres inteligentes e criados por meio de um processo diferente e totalmente distinto daqueles utilizados para plantas e animais.

Isso nos faz sentir superiores em relação a todas as formas de vida menos inteligentes, especialmente os organismos que se encontram em posições menos elevadas da cadeia evolutiva.

Mas esse conceito está totalmente fora da realidade. Quando observamos outros seres humanos como entidades individuais ou consideramos nós mesmos organismos únicos ao vermos a nossa imagem refletida num espelho, estamos corretos de certa forma, ao menos em nível de observação. Mas quando nos reduzimos ao tamanho de uma célula para analisar o nosso próprio corpo sob a perspectiva celular passamos a ver o mundo sob uma nova perspectiva.

Não nos vemos mais como uma entidade única e sim como uma comunidade de mais de 50 trilhões de células.

Enquanto preparava as minhas aulas para aquele novo curso, uma enciclopédia que eu usava quando criança me vinha à mente com frequência. A parte de ciências tinha uma ilustração de sete páginas transparentes e sobrepostas mostrando o corpo humano em detalhes. A primeira mostrava a figura de um homem nu. A segunda mostrava o mesmo corpo, porém sem a pele, com os detalhes da musculatura. A cada página viam-se detalhes diferentes, como o esqueleto, o cérebro, a estrutura nervosa, as veias e os órgãos internos.

Adaptei a ideia ao meu curso no Caribe e imaginei as mesmas transparências mostrando a estrutura celular. A maior parte dos componentes da estrutura de uma célula é chamada de organela, seus “órgãos em miniatura” que ficam dentro de uma substância gelatinosa chamada citoplasma. As organelas equivalem aos tecidos e órgãos do corpo humano. Possuem um núcleo, que é sua maior organela, uma mitocôndria e o complexo golgiense, além de vacúolos.

Os cursos tradicionais apresentam primeiro essa estrutura celular; depois passam aos tecidos e órgãos do corpo humano, mas fiz algo diferente: integrei as duas partes do curso mostrando as semelhanças entre os corpos humano e celular.

Ensinei aos meus alunos que os mecanismos bioquímicos utilizados pelos sistemas de organela celular são basicamente os mesmos utilizados pelo nosso corpo. Embora sejamos compostos de trilhões de células, enfatizei que não há sequer uma “nova” função nos nossos corpos que não esteja presente também nos das células.

Cada célula eucariótica, isto é, que contém um núcleo, possui uma estrutura funcional equivalente aos nossos sistemas nervoso, digestivo, respiratório, excretor, endocrinológico, muscular, esquelético, circulatório, tegumentar (pele), reprodutivo e até mesmo algo parecido com nosso sistema imunológico porém mais primitivo, que utiliza uma família de proteínas semelhantes a anticorpos do tipo “ubiquitina”.

Expliquei também que cada célula é um ser inteligente e que sobrevive por conta própria, algo que os cientistas já demonstraram retirando células individuais do corpo para mantê-las em cultura separada.

Assim como eu havia descoberto intuitivamente durante a minha infância, essas células inteligentes têm vontade própria e um propósito de vida. Procuram ambientes que sejam adequados à sua sobrevivência e evitam todos os que possam ser tóxicos e/ou hostis.

Da mesma maneira que nós, humanos, fazemos, analisam as centenas de estímulos que recebem do microambiente que habitam para selecionar as respostas comportamentais mais adequadas e garantir a sua sobrevivência.

As células também são capazes de aprender com as experiências que vivenciam em seu ambiente e de criar uma espécie de memória que é passada aos seus descendentes. Por exemplo: quando o vírus do sarampo infecta uma criança, as suas células ainda não amadurecidas são colocadas em ação para criar um anticorpo de proteína protetor e combatê-lo. Nesse processo, as células criam um novo gene que servirá de padrão para a fabricação de anticorpos contra o sarampo.

O primeiro passo para gerar um gene de anticorpos ocorre no núcleo das células imunológicas imaturas. Nos seus próprios genes há um grande número de segmentos de DNA que contêm códigos de fragmentos moldados de proteínas. Recombinando e montando aleatoriamente esses segmentos, as células imunes criam uma vasta gama de genes que formam uma proteína única de anticorpos.

Então, quando uma célula imune imatura produz uma proteína de anticorpos que seja um complemento físico “semelhante” ao do vírus do sarampo, aquela célula é ativada.

Células ativadas utilizam um mecanismo muito interessante chamado “maturação de afinidade”, que lhes permite “ajustar” de maneira muito precisa o formato da sua proteína de anticorpos, para que ela seja um complemento perfeito para vírus como o do sarampo (Li et al., 2003; Adams et al., 2003). Por meio de um processo chamado “hipermutação somática”, as células imunes ativadas fabricam centenas de cópias de seu gene de anticorpo. Mas cada nova versão do gene é levemente modificada e contém um formato diferente da proteína de anticorpo. A célula seleciona a variante de genes que melhor se adapta àquela necessidade de anticorpos.

Essa versão selecionada do gene também passa por vários ciclos de hipermutação somática para que a forma do anticorpo seja esculpida a ponto de se tornar o complemento físico “perfeito” do vírus (Wu et al., 2003; Blanden e Steele, 1998; Diza e Casali, 2002; Gearhart, 2002).

Quando o anticorpo esculpido se une ao vírus, desabilita-o e o marca para ser destruído, protegendo a criança do sarampo. As células criam então um “arquivo” das informações genéticas desse anticorpo para que todas as vezes que o organismo for invadido pelo vírus do sarampo elas possam responder imediatamente. O novo gene de anticorpos também pode ser passado a todas as novas gerações em seu processo de divisão.

Assim, elas não apenas “aprendem” sobre o vírus do sarampo como criam um “arquivo” a ser herdado e propagado entre a sua prole.

Este magnífico processo de engenharia genética é de extrema importância, pois representa um mecanismo de “inteligência” inata que permite às células se desenvolver (Steele et al., 1998).

 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora


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A INTELIGÊNCIA DAS CÉLULAS E DOS ALUNOS

LIÇÕES DA PLACA DE PETRI (2):

A INTELIGÊNCIA DAS CÉLULAS E DOS ALUNOS

 

PROBLEMAS NO PARAÍSO

 

No meu segundo dia no Caribe conheci os meus alunos, cem ansiosos estudantes de medicina, e percebi que nem todas as pessoas viam aquela ilha como eu, um refúgio pacífico e tranquilo no meio do oceano. Para aqueles estudantes, Monserrat era a última chance de transformar o sonho de se tornarem médicos em realidade.

Eram quase todos norte-americanos, da costa leste, com idade e etnia variadas. Um deles, aposentado e com 67 anos de idade, estava ansioso para aprender coisas novas. A formação deles também era bem heterogénea: a maioria tinha cursado apenas o colegial, mas também havia professores, contadores, músicos, uma enfermeira e até um contrabandista.

Apesar de todas as diferenças, tinham duas características em comum. A primeira é que haviam sido eliminados pelo competitivo processo seletivo das escolas de medicina dos Estados Unidos. A segunda era que tinham intenção real de se tornarem médicos e não desperdiçariam aquela chance de obter seu diploma. A maioria tinha economizado durante anos para pagar aquele curso e as despesas de morar em um país estrangeiro. Muitos estavam se aventurando sozinhos fora de casa pela primeira vez, longe da família e dos amigos, e também boa parte vivia em condições precárias naquele campus.

Mas, apesar de todos os obstáculos e contratempos, nada os fazia mudar de ideia. Estavam decididos a se tornarem médicos. Pelo menos era o que parecia quando iniciaram o curso.

Antes de mim tinham tido três professores de histologia/biologia celular. O primeiro abandonou os alunos porque teve de resolver problemas pessoais e simplesmente foi embora três semanas depois de se iniciarem as aulas. A diretoria encontrou outro para substituí-lo, mas este também não pôde continuar porque ficou doente.

Para que os alunos não ficassem sem aulas, um professor de outra matéria lia com eles trechos dos livros em sala de aula. Claro, isso não era produtivo e só os entediava, mas pelo menos fazia com que cumprissem a carga horária de palestras, um pré-requisito das bancas examinadoras para a prática da medicina nos Estados Unidos.

Então, pela quarta vez no mesmo semestre, os alunos tinham um novo professor. No primeiro dia, falei rapidamente sobre minha formação académica e minhas expectativas para o curso. Deixei bem claro que, mesmo estando em um país estrangeiro, meu nível de exigência para com eles seria o mesmo que tinha para com meus alunos em Wisconsin. Teriam de passar pela mesma bancada académica, não importava onde estivessem estudando. Tirei então uma pilha de exames de minha pasta e distribuí entre eles, explicando que se tratava de um teste de conhecimentos gerais. Já estávamos no meio do semestre e por isso deveriam ter base suficiente para fazê-lo.

Eram 20 questões de um teste de histologia do primeiro trimestre da Universidade de Wisconsin.

Durante os primeiros dez minutos de prova a sala ficou em silêncio mortal. Depois, alguns alunos começaram a suar e a bufar, e o desespero se espalhou pela sala mais rápido do que o vírus ebola. Ao final dos 20 minutos de prazo que eu havia estipulado, todos estavam em pânico.

Quando disse “tempo esgotado” houve uma chuva de gemidos e reclamações. A pontuação mais alta foi de dez respostas corretas. A maioria não acertou mais de sete. E o resto acertou duas ou três por mera sorte.

Todos me olhavam chocados. Perceberam claramente o que os esperava. Metade do semestre havia se passado, mas teriam de recomeçar tudo outra vez, desde o início. Como a maioria ali já tinha sido reprovada em outros cursos, conhecia bem o protocolo.

Seus olhares pareciam os daqueles filhotes de foca prestes a serem abatidos, que vemos nas fotos do Greenpeace.

Meu coração disparou. Imaginei que provavelmente a maresia e o ar daquela ilha estivessem me tornando um pouco mais generoso.

Sem pensar duas vezes, disse a eles que faria tudo o que estivesse ao meu alcance para que estivessem preparados para os exames finais, desde que também se esforçassem para isso. Percebendo minha sinceridade, eles pareceram se acalmar um pouco.

Sentia-me como um treinador preparando o time para a disputa final. Expliquei a eles que não eram menos inteligentes que os alunos que tive nos Estados Unidos. A única diferença era que ainda não estavam, como eles, acostumados a estudar muitas horas por dia e a memorizar grandes quantidades de material em pouco tempo, uma característica essencial para alunos de faculdade.

Expliquei também que histologia e biologia celular não são cursos de teoria muito complexa. A natureza segue princípios muito simples, fáceis de assimilar. Prometi que, em vez de pedir que memorizassem tudo, explicaria passo a passo o funcionamento das células para que entendessem os princípios básicos e complementaria a prática de laboratório com palestras sobre teoria no período da noite.

Pareceram mais animados após essa explicação e saíram da sala determinados a não deixar que mais aquele obstáculo os impedisse de atingir seus objetivos.

Quando todos saíram e parei para pensar no tamanho da responsabilidade que havia assumido, meu ânimo diminuiu. A maioria daqueles alunos não tinha conhecimento prévio suficiente para um curso de medicina, mesmo os mais capacitados. Percebi que a experiência académica naquela ilha poderia acabar sendo uma grande perda de tempo e desperdício de esforços tanto para mim quanto para eles. Comecei a achar que lecionar em Wisconsin era bem mais fácil.

Eu dava apenas oito das cinquenta aulas do curso de histologia/biologia celular. O corpo académico era bem maior e havia vários professores para cada matéria. Claro, tinha de conhecer o conteúdo de todas elas, pois também era responsável pelo acompanhamento das aulas de laboratório e respondia às questões dos alunos. Mas conhecer a matéria e ter de apresentar todo o conteúdo não é a mesma coisa!

Tinha a sexta-feira e o final de semana para pensar na situação. Se isso tivesse acontecido na época em que eu estava em Wisconsin, provavelmente teria recusado o convite para lecionar a matéria.

Mas quando me sentei naquela tarde perto da piscina, para assistir ao maravilhoso pôr-do-sol do Caribe, minha angústia se transformou em alegria. Fiquei contente porque, afinal, pela primeira vez em toda a minha carreira de professor, seria responsável por todas as matérias do curso de biologia, sem ter de me adaptar ao estilo ou às restrições de um corpo académico. 

 

(2) PETRI – Recipiente circular raso, de vidro ou plástico, usado para fazer cultura de microorganismos. (Nota da Tradutora) 

 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora


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A MENTE CONSCIENTE

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A MENTE CONSCIENTE ESTA MUITO ALEM DA MERA PROGRAMAÇÃO GENÉTICA

Ao escrever este livro, sinto-me como se estivesse desenhando uma linha na areia, que divide a história da humanidade. De um lado está o neodarwinismo, que dispõe a vida como uma eterna batalha entre robôs bioquímicos, e do outro está a “nova biologia”, que a considera uma jornada de cooperação entre indivíduos de vontade própria que podem se programar para criar uma existência cheia de felicidade. Ao cruzar essa linha, passamos a entender claramente os conceitos da nova biologia, encerrando definitivamente a polémica sobre aquilo que é natural em nós ou que herdamos de nossos pais.

Percebemos que a mente consciente está muito além da mera programação genética. Creio que neste momento vivência-mos uma mudança profunda e pragmática em nosso modo de ver a vida, algo semelhante ao que aconteceu quando o conceito de que a Terra era redonda substituiu todas as crenças da época.

Aos leigos que estiverem preocupados imaginando que este livro é muito técnico, aviso que podem ficar tranquilos. Mesmo em minha fase mais académica, quando vivia de terno e gravata em intermináveis reuniões, jamais deixei de fazer algo que adoro: lecionar. E minha fase pós-académica me permitiu colocar em prática toda a minha experiência de professor, pois viajei pelo mundo apresentando os princípios da nova biologia a centenas de pessoas. Tive de adaptar o meu conhecimento académico e utilizar uma linguagem acessível a todos com exemplos e ilustrações muito claros. São os que utilizei neste livro.

O Capítulo 1 é sobre a “inteligência” das células e quanto elas podem nos ensinar a respeito da nossa mente e do nosso corpo. O Capítulo 2 mostra as evidências científicas de que os genes não controlam os seres vivos e apresenta as fantásticas descobertas da epigenética, um novo campo da biologia que desvenda os mistérios de como o ambiente (natureza) pode influenciar o comportamento das células sem modificar o código genético. É uma nova face da ciência, que revela mais detalhes sobre o complexo sistema e estrutura das doenças, incluindo o cancro e a esquizofrenia.

O Capítulo 3 é sobre a membrana ou “pele” das células. Você já deve ter ouvido falar que o núcleo das células contém DNA, mas talvez ainda não saiba sobre a membrana que as reveste. A ciência hoje pesquisa e revela detalhes sobre algo que eu já havia concluído 20 anos atrás: que a membrana é o verdadeiro cérebro de toda a atividade celular.

O Capítulo 4 trata das descobertas da física quântica e seu impacto sobre a compreensão e o tratamento das doenças. Mas, infelizmente, a medicina tradicional ainda não a incorporou às suas pesquisas ou mesmo à sua formação académica, o que representa grandes perdas tanto para a ciência quanto para a humanidade.

No Capítulo 5, explico porque dei a este livro o nome de A biologia da crença. Os pensamentos positivos têm um efeito profundo sobre o nosso comportamento e sobre os nossos genes, mas somente se estiverem em harmonia com a nossa programação subconsciente e o mesmo vale para os pensamentos negativos. Quando entendemos como as crenças positivas e negativas controlam nossa vida, podemos modificar esses padrões e passar a ter mais saúde e felicidade.

O Capítulo 6 mostra que tanto as células quanto as pessoas precisam crescer e se desenvolver e como o medo pode
impedir esse processo.

O Capítulo 7 é sobre a paternidade consciente. Como pais, precisamos entender o papel que desempenhamos na programação das crenças dos nossos filhos e o impacto destas crenças em sua vida. Recomendo a leitura deste capítulo mesmo a quem não tem filhos, pois um dia todos fomos crianças e entender esse mecanismo é crucial mesmo agora que somos adultos.

No Epílogo, explico como a nova biologia me fez perceber a importância da integração espírito-ciência e como isso modificou radicalmente a visão agnóstica e científica que eu tinha a respeito do mundo.

Você está pronto para usar sua mente consciente e ter mais saúde, felicidade e amor sem a necessidade de recursos da engenharia genética ou de medicamentos? Está pronto para abrir sua mente a uma realidade diferente daquela que foi criada pelos modelos médicos, considerando o corpo humano uma simples máquina bioquímica? Não se preocupe. Não estou apresentando um produto novo ou uma nova religião.

É apenas um convite para que você deixe de lado por alguns instantes todas as crenças impostas pela mídia e pela ciência tradicional para vislumbrar o universo que se abre à sua frente com as descobertas da nova ciência.

 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora


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APRENDENDO COM AS CÉLULAS

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APRENDENDO COM AS CÉLULAS

 

Estudando essas comunidades celulares / de células cheguei à conclusão de que não somos vítimas dos nossos genes e sim donos do nosso próprio destino, capazes de criar uma vida cheia de paz, felicidade e amor.

A primeira cobaia dessa teoria fui eu mesmo, pois as pessoas para quem eu dava palestras sempre me perguntavam por que minhas descobertas não tinham me transformado em uma pessoa mais feliz.

E estavam certas. Eu tinha de colocar em prática os meus próprios ensinamentos. Só percebi que isso estava acontecendo algum tempo depois, quando estava tomando café em uma lanchonete numa bela manhã de domingo. A garçonete comentou enquanto trazia meu pedido: “Puxa, você é a pessoa mais feliz que eu já vi. O que aconteceu de tão bom em sua vida para você ficar assim?” Quase caí da cadeira tão grande foi minha surpresa, mas respondi sem pensar: “Estou nas nuvens!” A garçonete balançou a cabeça e saiu murmurando “cada maluco que aparece por aqui…”.

Mas era verdade. Eu estava muito feliz, como jamais havia estado em minha vida.

Muitos leitores vão achar exagerado meu conceito de que a Terra é o paraíso, pois a associação mais comum que fazemos de paraíso é a de moradia da divindade e/ou dos que já morreram. Como alguém pode dizer então que uma cidade como Nova Orleans é uma extensão do paraíso? Suas ruas estão cheia de homens, mulheres e crianças vivendo como mendigos; o ar é tão poluído que nem se pode ver as estrelas no céu à noite. A água de seus rios é tão suja que somente formas de vida “estranhas” podem existir ali. Como chamar um lugar desses de paraíso? Como uma divindade pode viver em uma cidade assim? E o que este autor maluco chama de divindade? Será que ele conhece alguma pessoalmente?

A resposta para essas perguntas é: sim, acredito que vivemos no paraíso. Devo confessar que não conheço todas as divindades pessoalmente, pois não conheço todos os seres humanos. Afinal, são mais de seis bilhões! Também não conheço todos os membros dos reinos animal e vegetal. Mas sei que todos vocês fazem parte de um único ser: Deus.

Como disse Tim Taylor no seriado “Tool time”: “Espera aí! Ele está dizendo que os seres humanos são Deus?”

Sim… mas não sou o primeiro a fazer esse tipo de afirmação. Está escrito no Génese que somos feitos à imagem e semelhança de Deus. Ninguém diria que um cientista tão racional quanto eu acabaria citando mestres como Jesus, Buda ou Rumi ou que minha visão reducionista da vida acabaria dando lugar à espiritualidade.

Mas se somos realmente a imagem de Deus precisamos colocar novamente o espírito na equação quando se trata de melhorar nossa saúde física e mental.

Outro aspecto a ser revisto quando se trata de seres humano é que não somos meras máquinas bioquímicas que podem recuperar o equilíbrio físico e mental simplesmente tomando medicamentos Remédios e cirurgias são ferramentas muito eficazes desde que utilizados com cautela.

O conceito de que podem resolver todos os problemas está errado. Cada vez que um medicamento é introduzido no organismo para corrigir um problema “A” acaba inevitavelmente causando um problema “B”, “C” ou “D”. E também não são as hormonas e neurotransmissores, controlados pelos genes, que dirigem nossa mente, nosso corpo e nossa vida, mas sim nossas crenças… Sim, homens de pouca fé! São nossas crenças que comandam nossa existência. 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora


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A MAGIA DAS CÉLULAS – DÉJÀ-VU

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A MAGIA DAS CÉLULAS – DÉJÀ-VU

 

Sem querer, acabei encontrando uma válvula de escape. Tirei licença de um ano e fui lecionar em uma universidade no Caribe.

Claro, meus problemas não iriam desaparecer simplesmente pelo fato de eu estar longe, mas quando o avião decolou de Chicago fiquei tão feliz que precisei me controlar para não gargalhar. Uma alegria imensa me invadiu e me senti como naquele dia, aos sete anos de idade, quando descobri o mundo mágico das células.

A felicidade aumentou ainda mais quando entrei no pequeno avião de seis passageiros que fez a ponte aérea até Monserrat, uma pequena e isolada ilha de apenas 19 quilómetros no meio do Mar do Caribe. Se o Jardim do Éden realmente existiu, com certeza era bem parecido com aquele lugar, um pedaço do paraíso circundado pelo imenso mar cristalino verde-azulado.

Quando o avião pousou e a porta se abriu, fiquei embriagado pelo cheiro das flores de gardénia que veio com a brisa.

Os moradores da ilha tinham o hábito de interromper seus afazeres para observar o pôr-do-sol, um ato de contemplação tão relaxante do qual em poucos dias eu me tornei um adepto fiel. Às vezes mal podia esperar para assistir àquele maravilhoso show no final da tarde. Minha casa ficava em uma espécie de penhasco 1.500 metros acima do oceano, virada para o oeste e, seguindo uma pequena  trilha, logo em frente eu podia descer até a água. Havia também uma pequena gruta com uma passagem cheia de árvores, plantas e flores que levava a uma praia deserta, onde eu iniciava o ritual de assistir ao pôr-do-sol mergulhando e deixando para trás todos os meus problemas diários. Depois me aconchegava na areia clara e macia para assistir ao espetáculo do sol desaparecendo lentamente mar adentro.

Ali, longe do estresse e da competição mercenária do mundo, comecei a ver a vida sem os bloqueios e as limitações das crenças dogmáticas da civilização. No início, não conseguia deixar de criticar e lamentar o desastre que minha vida tinha sido até aquele momento. Mas aos poucos comecei a colocar de lado as batalhas internas e a rever com mais calma os meus 40 anos de vida. Aprendi novamente a vivenciar o momento presente, exatamente como fazia quando criança. Reaprendi a sentir o prazer de estar vivo.

Acabei me tornando mais humano e humanitário naquela ilha paradisíaca. Também cresci como profissional. Quase toda a minha formação científica havia sido dentro de salas de aula, auditórios e laboratórios frios e estéreis. Meu contato com aquele ecossistema tão rico me fez ver a biologia como um sistema vivo e integrado, e não mais como um conjunto de espécimes dividindo espaço em um planeta.

Passeando pelas florestas e mergulhando entre os recifes de coral, pude observar de perto plantas e animais em seu habitat e perceber melhor sua interação. Existe um equilíbrio delicado e dinâmico entre todas as formas de vida e o ambiente. O que descobri nos Jardins do Eden do Caribe foi harmonia e não uma luta desesperada pela sobrevivência. Percebi que a biologia tradicional dá pouca ou nenhuma importância à questão da cooperação, pois a teoria de Darwin enfatiza apenas a natureza competitiva dos seres vivos.

Para o desgosto de meus colegas norte-americanos, retornei a Wisconsin protestando e argumentando contra todos os princípios e crenças da biologia tradicional. Criticava abertamente Charles Darwin e sua teoria da evolução. Os biólogos me viam como um padre que se volta contra o Vaticano e acusa o papa de ser impostor.

Todos pensaram que um coco havia caído em minha cabeça quando pedi demissão da universidade para seguir um sonho de minha vida: entrar para uma banda de rock e fazer uma turnê. Produzi um show de laser com Yanni, que havia se tornado uma celebridade no mundo musical. Mas logo percebi que tinha mais talento como professor e pesquisador do que como produtor de shows de rock. Entrei em crise, acabei desistindo do mundo da música e voltei ao Caribe para lecionar biologia celular.

Mas a fase final de minha vida académica foi na Escola de Medicina da Universidade de Stanford, agora defendendo e propagando abertamente a “nova” biologia. Questionava não apenas Darwin e sua versão canibal da evolução, mas também o dogma central da biologia, segundo o qual os genes controlam a vida. Este dogma tem uma séria falha: os genes não ligam-desligam sozinhos. Ou, em termos mais técnicos, não são aquilo que chamamos de “auto-emergentes”. É preciso que fatores externos do ambiente os influenciem para que entrem em atividade. Os biólogos já sabiam disto havia muito tempo, mas o fato de seguirem cegamente os dogmas da ciência os fazia ignorar esse conhecimento. Por isso, cada vez que eu me manifestava era duramente criticado por todos.

Tornei-me um candidato à excomunhão; um bruxo para ser queimado na fogueira! Na palestra que tive de apresentar durante o processo de entrevistas para a vaga de professor em Stanford, acusei todo o corpo docente, inclusive muitos dos renomados geneticistas ali presentes, de se comportarem exatamente como os fundamentalistas religiosos, aceitando o dogma central mesmo sabendo de todas as suas falhas.

A plateia se alvoroçou, gritando e vociferando contra mim. Concluí que meu processo de entrevistas havia terminado. Mas, para minha surpresa, as pesquisas e descobertas que apresentei sobre a nova biologia os entusiasmaram a tal ponto que decidiram me contratar.

Agora, finalmente, eu tinha o apoio dos grandes cientistas de Stanford, principalmente o do diretor do Departamento de Patologia, para colocar em prática minhas ideias sobre a pesquisa de clonagem de células humanas. E para o espanto de todos, os resultados confirmaram as teorias e princípios que eu havia apresentado. Publiquei dois ensaios sobre minhas pesquisas e deixei então o mundo académico, desta vez definitivamente (Lipton et al., 1991, 1992).

Tomei a decisão de abandonar a carreira académica porque, apesar de todo o apoio que recebia em Stanford, sentia que minhas teorias não tinham a atenção que mereciam. Mas, desde que deixei o cargo, novas pesquisas confirmam a todo instante meu ceticismo em relação ao dogma central e ao princípio de que o DNA é que controla a vida. Na verdade, a epigenética, que é o estudo dos mecanismos moleculares por meio dos quais o meio ambiente controla a atividade genética, é hoje uma das áreas mais atuantes da pesquisa científica em geral. O papel do meio ambiente no controle das atividades dos genes já era o foco de minhas pesquisas 20 anos atrás, antes mesmo de a ciência se interessar pelo assunto (Lipton, 1977a, 1977b). É gratificante saber que hoje mais pesquisadores se interessam por esta área. Mas tenho certeza de que, se estivesse lecionando em uma escola de medicina, meus colegas ainda imaginariam se um coco não caiu em minha cabeça enquanto eu estive no Caribe. Nestes últimos dez anos me tornei ainda mais radical em relação aos padrões académicos e minha preocupação com a nova biologia hoje é muito mais que mero exercício intelectual. Acredito que as células podem nos ensinar muito não apenas sobre os mecanismos da vida, mas também como viver de maneira mais rica e completa.

Para os elevados padrões da ciência tradicional, o único prémio que ideias como as minhas merecem é o de “cientista maluco”.

O que muitos cientistas ainda consideram antropomorfismo, ou melhor, citopomorfismo, eu chamo de “biologia 101”. Você pode se considerar um indivíduo, mas como biólogo celular eu lhe digo que você é uma grande comunidade cooperativa de aproximadamente 50 trilhões de células e que a maioria delas vive como amebas, ou seja, organismos que desenvolvem uma estratégia cooperativista para a sobrevivência de todos. Em termos mais simples: os seres humanos são meros resultados de uma “consciência amebóide coletiva”. Assim como uma nação reflete as características de seus cidadãos, nossa condição humana reflete a natureza de nossa comunidade celular.

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora


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A MAGIA DAS CÉLULAS

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A MAGIA DAS CÉLULAS

Quando eu tinha sete anos de idade, subi em uma caixa na sala aula para espiar pela lente de um microscópio. Para minha deceção, a única imagem que vi foi a da luz refletida. Aos poucos consegui conter minha ansiedade e ouvir as explicações da senhora Novak sobre como regular o foco. Então, algo tão dramático aconteceu que modificou completamente minha vida: vi um protozoário. Fiquei hipnotizado. O barulho das outras crianças ficou distante e me senti sozinho na sala. Todo o meu ser pareceu mergulhar no mundo alienígena das células, algo que até hoje é mais interessante para mim do que qualquer filme feito por computador.

Na inocência de minha mente infantil, eu via aquele organismo não como uma célula, mas como uma pessoa em tamanho diminuto, um ser pensante e consciente. Para mim, ele não estava nadando a esmo, mas sim cumprindo uma missão, embora eu não soubesse como descrever isso tudo naquela época. Fiquei observando seus movimentos ao redor de um grupo de algas. Nesse instante, o grande pseudópodo de uma ameba desengonçada também começou a se mover.

Então, enquanto eu fazia minha viagem maravilhosa naquele mundo liliputiano[1], Glenn, o mais perverso de meus colegas de classe, me empurrou para descer da caixa e tomou meu lugar diante do microscópio. Tentei convencer a professora Novak a me deixar ver mais um pouco, mas a aula estava terminando e outros alunos também esperavam sua vez. Naquela tarde corri para casa e contei, esbaforido, minha descoberta à minha mãe. Usando todos os poderes de persuasão que a idade me permitia, implorei e a bajulei até conseguir que ela comprasse um microscópio para mim. Passava horas maravilhado com aquele mundo alienígena do outro lado da lente. Mais tarde, na faculdade, passei a usar um microscópio electrónico, mil vezes mais potente. A diferença é mais ou menos como a dos telescópios que os turistas usam para ver cenas da cidade do alto dos edifícios comerciais em relação aos do tipo Hubble, que transmitem imagens do espaço sideral. Entrar na ala de microscópios de um laboratório é como uma cerimónia iniciática para estudantes que aspiram a se tornar biólogos. O portal desse mundo maravilhoso é uma porta giratória preta como aquelas que isolam as salas escuras de revelação de filmes fotográficos.


Até hoje me lembro da primeira vez que passei por ela. Era uma divisória entre dois mundos: minha vida de estudante e meu futuro como cientista e pesquisador. Quando a porta terminou de girar, eu me vi em uma sala grande e escura, iluminada apenas por pequenas lâmpadas vermelhas de segurança. Enquanto meus olhos se adaptavam à escuridão, fiquei assombrado com o que vi. As luzes vermelhas refletiam a superfície espelhada de uma imensa coluna de aço inoxidável com lentes eletromagnéticas que subiam até o teto no centro da sala e na base da coluna havia um grande painel de
controle que lembrava os de um Boeing 727, cheio de chaves, botões, medidores e luzes indicadoras. Na base também havia muitos fios, mangueiras e cabos de vácuo que se espalhavam como tentáculos ou como as raízes de uma árvore. O som das bombas de vácuo e de circuladores de água para refrigeração enchiam o ambiente. Tive a nítida impressão de estar entrando na sala de comando da nave U.S.S. Enterprise. Mas aparentemente aquele era o dia de folga do capitão Kirk, pois quem estava à frente dos comandos era um de meus professores, ocupado com o complexo processo de colocar uma amostra de tecido orgânico em uma câmara de vácuo no centro da coluna de metal.

Enquanto os minutos passavam, comecei a ter a mesma sensação que tive aos sete anos de idade, quando vi uma célula pela primeira vez. Finalmente, uma imagem verde fluorescente surgiu da tela.
Mal se podia distinguir as manchas escuras do plasma. A imagem estava ampliada em 30 vezes seu tamanho original. O professor começou então a aumentar o tamanho, passo a passo: 100 vezes, 1.000 vezes, 10.000 vezes. Quando chegou ao ponto máximo semdistorção, o microscópio havia ampliado a imagem em 100.000 vezes. Era realmente uma cena de jornada nas estrelas, mas em vez de viajarmos pelo espaço estávamos indo em direção ao microcosmo, onde “nenhum ser humano jamais esteve”. Em um momento, estávamos observando uma célula em miniatura e, no momento seguinte, podíamos observar toda a sua arquitetura molecular.

A sensação que tive ao cruzar aquela barreira científica foi Indescritível, principalmente porque fui convidado a ser co-piloto honorário naquele dia. Tive a honra de tocar os controles e “voar” sobre aquela paisagem alienígena celular. Meu professor foi meu guia turístico, indicando os pontos principais: “Aqui está uma mitocondria, seu complexo golgiense ali um poro nuclear, uma molécula de colagénio e mais adiante um ribossomo”.

 

A ideia de ser um pioneiro, aventurando-me por territórios jamais vistos por olhos humanos me fascinava. O microscópio simples despertou minha atenção para o mundo das células e de sua consciência, mas foi o microscópio electrónico que me permitiu vislumbrar as moléculas que são a base da vida. Sentia que em algum lugar dentro daquela “citoarquitetura” da célula eu encontraria algo que me levaria a desvendar os grandes mistérios da existência.

Por um instante, aquelas lentes se transformaram em bolas de cristal e na tela fluorescente eu vi meu futuro. Senti que seria um biólogo celular e que iria pesquisar com detalhe todas as nuances da ultraestrutura celular para descobrir seus segredos. Afinal, estava aprendendo na própria faculdade que a estrutura e a função dos organismos biológicos estão intimamente ligadas. Tinha certeza de que, estudando mais profundamente a relação entre a anatomia e o comportamento das células, eu conseguiria entender seu mecanismo. Dediquei então todo o meu tempo livre durante a faculdade, mestrado e doutorado à pesquisa da anatomia molecular, pois ali estava a chave do que eu procurava.


Minha curiosidade sobre estes “segredos da vida” também me levou a pesquisar a clonagem de células humanas.
Dez anos após meu primeiro contato com um microscópio electrónico, eu me tornara um membro do corpo docente da Escola de Medicina da Universidade de Wisconsin, internacionalmente reconhecido por minhas pesquisas sobre clonagem de células-tronco e respeitado dentro da faculdade por minhas habilidades de professor. E utilizava microscópios electrónicos ainda mais poderosos que me permitiam visualizar imagens tridimensionais de organismos vivos para observar bem de perto a base da vida. Embora as ferramentas agora fossem mais sofisticadas, meus objectivos ainda eram os mesmos. Jamais perdi a convicção adquirida aos sete anos de idade ao ver pela primeira vez a imagem de um protozoário em um microscópio. A vida das células tinha de ter um propósito.

A única coisa que permanecia sem propósito era minha vida pessoal. Não acreditava em Deus, embora deva confessar que quando imaginava a possibilidade de sua existência a figura que surgia em minha mente era sempre a de um grande e perverso controlador com senso de humor deturpado. Eu era, afinal, um biólogo tradicional, para quem a existência de Deus era uma questão totalmente irrisória. Considerava a vida mera consequência do acaso, como a sorte no jogo. As probabilidades dos resultados genéticos são as mesmas de um dado rolando sobre uma mesa. O lema de nossa profissão desde a época de Charles Darwin era: “Deus? Não precisamos de um Deus”.

Não que Darwin negasse a Sua existência. Ele simplesmente afirmava que o acaso, e não a intervenção divina, é o verdadeiro responsável pela vida na Terra. Em seu livro A origem das espécies, publicado em 1859, Darwin afirma que as características individuais são passadas dos pais para os filhos e que estas são “factores hereditários” que controlam a vida de todos nós. Essa afirmação levou os cientistas a uma busca frenética para dissecar todas as partes que compõem as moléculas em uma tentativa de decifrar os mecanismos hereditários responsáveis pela vida.

A pesquisa chegou ao fim 50 anos atrás, quando James Watson e Francis Crick descreveram a estrutura e a função da espiral dupla do DNA, o material do qual os genes são feitos. Os cientistas finalmente entendiam os “factores hereditários” que Darwin mencionou em seus manuscritos no século 19. Os jornais anunciaram a nova engenharia genética, a promessa de bebés com características programadas e os medicamentos milagrosos. Até hoje me lembro das manchetes daquele dia memorável em 1953: “Descoberto o segredo da vida”.

Os genes passaram então a ser a explicação para tudo e os mecanismos pelos quais o DNA controla a vida biológica se tornaram o dogma central da biologia molecular, descrito com detalhes em todos os livros e pesquisas. A longa discussão sobre as características que herdamos ou que adquirimos durante a vida acabou.

Os cientistas estavam certos de que tudo é herdado de nossos pais. No início, pensavam que o DNA fosse responsável apenas por nossas características físicas. Com o tempo passaram a acreditar que nossos genes também controlavam nossas emoções e comportamento. Portanto, se alguém nascesse com um gene de felicidade defeituoso só poderia esperar ter uma vida infeliz. Eu me considerava uma dessas pessoas; uma vítima da fatalidade de ter um gene de felicidade mutante ou mesmo ausente. Justamente nessa época estava passando por muitos problemas em minha vida.

Meu pai estava morrendo após uma longa e dolorosa batalha contra o câncer. E como eu era o responsável por ele, passei os quatro últimos meses de sua vida viajando duas a três vezes por semana de Wisconsin para Nova York. Ao mesmo tempo, coordenava um programa de pesquisas, lecionava e escrevia a tese de renovação de meu título de mestrado no National Institutes of Health. Para completar, estava em meio a um divórcio que me consumia emocional e financeiramente. Minhas economias se esvaíram rapidamente entre custas de advogados e pensão para meus dependentes. Acabei apenas com uma mala de roupas e morando em um apartamento alugado em um prédio que não recomendaria a meus piores inimigos. Tinha medo de meus vizinhos, especialmente o do apartamento ao lado.

Na primeira semana após me mudar, a porta foi arrombada e meu aparelho de som desapareceu. Alguns dias depois, meu vizinho (de 1,90 m de altura e pelo menos 90 cm de largura) tocou a campainha com uma lata de cerveja em uma das mãos e palitando os dentes com a outra para me perguntar se eu tinha o manual de instruções do aparelho. Mas o ponto alto foi quando atirei o telefone pela porta de vidro de meu escritório, despedaçando inclusive a placa de “Bruce H. Lipton, Professor Adjunto de Anatomia, Escola de Medicina da Universidade de Wisconsin”, gritando “eu vou enlouquecer!” O ataque de nervos foi causado pelo telefonema de um gerente de banco que me explicou de maneira gentil, porém direta, que não poderia me conceder um empréstimo. Parecia uma cena do filme Laços de ternura em que Debra Winger responde ao marido: “Não temos dinheiro para pagar nossas contas agora. E, pelo jeito, não vamos ter nunca!”

 

[1] Relativo a Lilipute ou ao habitante desta ilha imaginária do romance Viagens de Gulliver, do escritor inglês Jonathan Swift (1667-1745), onde os habitantes medem apenas seis polegadas. Fonte: Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.
(Nota do Editor)

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora


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