Como é que os nossos conceitos nos fazem sofrer

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Como é que os nossos conceitos nos fazem sofrer

Falava com um senhor sobre pensamentos: sobre as máscaras que usamos no nosso dia-a-dia, na nossa dificuldade em sermos realmente nós próprios, mas também o facto de realmente nem sabermos quem somos.

Falávamos e num desses diálogos apercebi-me que o senhor guardava uma culpa e um ressentimento enorme em relação a um casamento que havia acabado há uns 7 ou 8 anos. O casamento acabara devido a traição por parte da ex-esposa. Ele sentia-se enganado. Eu perguntei-lhe:

– Você sente uma grande culpa e ressentimento em relação á sua ex-mulher não é?

– Não! Antes sim, Agora não. O que sinto é uma grande revolta, mas em relação a mim próprio!

– Mas é um assunto que ainda mexe muito consigo.

– Sim…sinto-me enganado…

Ele sentia-se enganado, pois vivera cerca de 30 anos com uma mulher que verdadeiramente não conhecia, pois viera a descobrir que ela tinha um amante. Eu perguntei-lhe:

– Onde começa a traição?

Ele ficou a olhar para mim. Eu perguntei-lhe:

– Será que começa no pensamento?

– Ah sim, começa aí, sim!

– E você vai-me dizer que em 30 anos de casamento nunca traiu a sua mulher?

Ele ficou estupefacto a olhar para mim, e após alguma reflexão respondeu:

– Bem…Sim…

– Então como é que você se pode sentir enganado?

– Bem, eu pensei, mas ela passou á acção!

– Do pensamento á acção vai um bocadinho assim – e mostrei-lhe cerca de 1cm entre um dedo a outro.

Ele confirmou.

– Pois, mas então estás a dizer que eu a trai?

– Não, eu só lhe quero mostrar que é o seu próprio conceito de traição que está mal, está desadequado, e não a atitude em si. A atitude em si não é nada, a sua interpretação dela é que está a fazê-lo sofrer. Não estou a dizer que é mau ou bom trair, nem que foi este ou aquele que traiu, estou a dizer que o conceito não se adequa. O conceito de traição não se adequa, pois como vamos impedir alguém de olhar para outra pessoa e pensar alguma coisa dela e com ela? E isso não acontece connosco também? Acontece comigo também, e eu sou mulher! É normal! Senão Deus não me teria feito mulher, ter-me-ia feito outra coisa qualquer…um anjo, por exemplo! E o conceito de adultério? Sabe como eu o defino?

– Não…

– Adultério é outro conceito que não faz sentido! Como é que você pode dizer se o que a sua ex-mulher cometeu foi adultério ou Amor?

– Pois, acho que foi amor, pois algum tempo depois ouvi dizer que o homem com quem ela andava, já desde que tínhamos os filhos pequenos, tinha sido o seu primeiro amor, de quando tinham 14 anos.

– Então como você se pode sentir enganado? Não pode! Não faz sentido! Olhe, tenho a certeza que você, com o fim desse relacionamento cresceu imenso como pessoa, e mudou imenso e para melhor!

– Ah sim, cresci muito, e mudei muito. Eu antes era um “bicho-do-mato”, agora falo com toda a gente! Também vejo a vida de uma forma completamente diferente. E sinto-me muito Feliz com o relacionamento que tenho Agora.

– Então como acha que estaria se tivesse continuado nesse relacionamento anterior?

– Ah, teria ficado na mesma, assim, um “bicho-do-mato” (…)

Gostei imenso de ter falado com este senhor. Foi interessante a forma como nem sequer pensei no que lhe estava a dizer ou perguntar, a conversa fluía livremente. E fiquei muito contente que ele tenha tido a oportunidade de reflectir, com outros olhos, sobre os seus conceitos.

Claro que aquilo que eu vi não tem nada a ver com o que ele viu, estaria a enganar-me redondamente se esperasse que alguém visse o que eu vejo. Não porque vejo menos ou mais, mas porque vejo consoante a minha abertura e limitação. Sinto que vejo de um modo muito diferente daquele que via antes de iniciar este novo processo na minha vida. Sinto que vejo de modo diferente do modo que via ontem. E sei que amanhã verei de outra perspectiva ainda. E é ai que está a beleza. O que me torna dinâmica e me livra da vontade de ser perfeccionista e de achar que o que se diz Agora é para sempre! Não! A verdade está sempre a mudar, e é ao expor a minha verdade que estou a dar espaço para outra entrar! Tenho tido essa experiência! Sinto que tive imensos “rasgos” de consciência desde que comecei a trabalhar para a construção deste blog, pois sempre falei de mim, daquilo que me incomodava ou das minhas vitórias, e isso abriu-me novos caminhos. Mas o que me tem ajudado mais, nesta experiência é a partilha. A partilha liberta tanto quem partilha como quem ouve, neste caso, quem lê. É um processo de ajuda mútua, e que caminha lado a lado! E sinto-me verdadeiramente Feliz com isso, pois se eu tenho sentido que tenho crescido com este meu trabalho é porque tenho ajudado a que outros cresçam também. Eu cresço com o crescimento do outro e vice-versa. É muito gratificante!

Obrigado!

 

Nota: o que é aqui escrito é a minha experiência. O que se pretende aqui é dar a conhecer experiências do dia-a-dia, que poderão ser úteis a quem se identificar com elas. Isto não invalida o facto de que a verdade está em constante alteração, assim como também a nossa consciência, que com as nossas experiências vai evoluindo.

Não se esqueçam: A única coisa que temos como garantia nesta vida é a mudança.

Composto e Postado por

Elisabete Milheiro


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Sim, é possivel criar uma vida nova!!!