É O AMBIENTE, SUA BESTA

Jamais me esquecerei de algo que vim a saber em 1967, quando aprendi a clonar células-tronco na faculdade. Levei décadas para perceber quanto aquela informação tão simples poderia me ajudar na minha carreira e na minha vida pessoal. O grande cientista Irv Konigsberg, meu professor e mentor, foi um dos primeiros biólogos celulares a dominar a arte da clonagem de células-tronco. Ele explicou-nos que quando há algo de errado com as células que estudamos devemos analisar primeiro o ambiente em que elas se encontram e não apenas as células para descobrir a causa do
problema.

Claro, o meu professor não era tão rude quanto James Carville, responsável pela campanha de Bill Clinton na época, e que elegeu a frase “é a economia, sua besta” como mantra da campanha para a eleição de 1992. Mas os biólogos celulares bem que poderiam ter colocado placas com o aviso “é o ambiente, sua besta” na parede dos seus laboratórios de estudo, exatamente como fizeram os partidários de Clinton. Na época não percebi, mas com o tempo comecei a ver que se trata de uma questão-chave para compreendermos a essência da vida.

Sempre me lembrava do conselho de Irv. Toda a vez que estabelecia um ambiente saudável para a cultura de células elas se tornavam mais resistentes. Mas se algo no ambiente não era favorável, elas logo se enfraqueciam. Bastava fazer alguns ajustes para tornar o ambiente mais propício e elas voltavam a se revitalizar. A maioria dos biólogos, porém, não sabia desse detalhe sobre técnicas de cultura de células e passaram a dar ainda menos importância ao fato após a revelação de
Watson e Crick sobre o código genético do DNA.

Até mesmo Charles Darwin admitiu, no final da sua vida, que a sua teoria evolucionista havia subestimado o papel do meio ambiente. Numa carta que escreveu para Moritz Wagner em 1876, ele declara (Darwin, F 1888): “Na minha opinião, o maior erro que cometi foi não dar a devida atenção à ação do ambiente sobre os seres, como no caso dos alimentos, clima etc. independentemente do fator seleção natural… Quando escrevi A origem das espécies, e mesmo nos anos seguintes, jamais percebi as evidências da ação direta do meio ambiente; hoje elas são muito claras para mim”.

Mas os cientistas que seguem a teoria de Darwin continuam a cometer o mesmo erro. Na verdade, o problema dessa indiferença dos cientistas em relação ao ambiente é a ênfase exagerada da “natureza” sob o aspecto do determinismo genético, ou seja, a crença de que os genes “controlam” a biologia. Isso custou ao governo centenas de dólares em pesquisas, como mostrarei mais adiante, porém o mais importante é que essa teoria mudou a nossa maneira de pensar sobre a vida.

Se alguém acredita que os genes controlam a sua vida e que são programados desde o momento da concepção, tem uma boa desculpa para se considerar uma vítima da hereditariedade. “Não tenho culpa de ter maus hábitos. Não posso mudar
a minha tendência de deixar tudo para a última hora… São as minhas características genéticas!”

Desde que se iniciou a era da genética, temos sido levados a crer que não há como lutar contra aquilo que fomos programados para ser. O mundo está cheio de pessoas com medo de que os seus genes possam se voltar contra elas.

Imagine o número de indivíduos que se consideram verdadeiras bombas-relógio, com medo de que o cancrose desenvolva no seu organismo a qualquer momento só porque isso aconteceu com os seus pais, irmãos ou tios. Outros atribuem a sua
falta de saúde não apenas a uma combinação de fatores mentais, físicos, emocionais e espirituais, mas também a falhas no
mecanismo bioquímico de seu organismo.

Os seus filhos não se comportam bem? A primeira reação dos médicos é corrigir o seu “desequilíbrio químico” por meio de medicamentos em vez de tentar descobrir o que há de errado com seu corpo, mente ou espírito.

Claro, algumas doenças como coreia de Huntington, talassemia e fibrose cística são de origem genética. Mas distúrbios desse tipo afetam menos de dois por cento da população. A maioria das pessoas vem a este mundo com uma carga genética capaz de lhes proporcionar uma vida muito feliz e saudável.

Doenças que ainda não têm cura como a diabetes, problemas cardíacos e o cancro podem destruir a vida de muitos, mas não são resultado de um único gene e sim de complexas interações entre genes múltiplos e fatores ambientais.

O que pensar então das manchetes sensacionalistas anunciando a descoberta de um gene para cada doença, de depressão a
esquizofrenia? Mas leia esses artigos com calma e você vai descobrir outra verdade por trás deles. Os cientistas associaram diversos genes a diferentes doenças e características, mas ainda não chegaram à conclusão de que um simples gene possa ser a fonte delas.

A confusão ocorre porque a mídia deturpa o sentido de dois termos muito importantes: correlação e causa. Uma coisa é dizer que um fator está relacionado a uma doença, outra é dizer que ele é a causa dela, pois isso envolve uma ação direta.

Se eu lhe mostrar um molho de chaves e disser que uma delas “controla” o meu carro, você vai achar que faz todo o sentido, pois sabe que é necessário usar uma chave para dar partida num automóvel. Mas será que a chave realmente “controla” o carro?

Se fosse assim, não se poderia deixar a chave no carro porque ela iria querer passear sozinha com ele quando você não estivesse por perto. A chave está “relacionada” ao controle do carro; a pessoa que a tem nas mãos tem controle sobre
ele. Da mesma maneira, determinados genes estão relacionados ao comportamento de um organismo e às suas características. No entanto, permanecem em estado passivo a menos que uma força externa aja sobre eles.

Mas que força é essa que pode ativar os genes? Uma resposta muito interessante para essa questão foi publicada num ensaio de 1990 intitulado “As metáforas, o papel dos genes e o desenvolvimento”, de H. F. Nijhout (Nijhout, 1990). O autor apresenta evidências de que os genes que controlam a biologia se repetem com tanta frequência e por períodos tão longos de tempo que os cientistas se esqueceram de que se trata apenas de uma hipótese, não de verdade comprovada.

Na verdade, a ideia de que os genes controlam a biologia é apenas uma suposição jamais comprovada e até questionada pelas descobertas científicas mais recentes. Nijhout afirma que o controle genético se tornou uma metáfora na nossa
sociedade. Queremos acreditar que os engenheiros geneticistas são os novos mágicos da medicina e que vão curar as doenças com a mesma maestria de génios como Einstein ou Mozart.

Mas metáforas não combinam com verdades científicas. Nijhout apresenta a verdade: “Quando determinada característica de um gene se faz necessária, o ambiente gera um sinal que o ativa. O gene não se manifesta por si só”. Ou seja, quando se trata de controle genético o que fala mais alto “é o ambiente, sua besta”.

 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora