Efeitos Psicossomáticos do Toque

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Efeitos Psicossomáticos do Toque

 

Efeitos Psicossomáticos do Toque

 

Graciosa e carinhosamente ela se aproximou de mim, olhou em meus olhos, roçou minha pele, enroscou-se entre minhas pernas tocando e desejando ser tocada. Inicialmente procurei afastá-la, entretanto, por mais que resistisse, acabei cedendo aos seus encantos e com prazer  deslizei minha mão sobre seu lindo corpo. Ah! Ia esquecendo… ela também me deu umas arrepiantes lambidelas… 

Caro leitor, não se assanhe nem se escandalize, refiro-me a uma linda cachorra, a Taipa, mistura de Pastor Alemão com Rottweiler, pertencente a um amigo. Ironicamente, não raras vezes os animais desfrutam mais daquilo que como seres humanos andamos tão carentes, isto é, de toque.  

Em geral, quando tocamos um animal o fazemos esvaziados de preconceitos e tabus. Estão mais do que provados os benefícios de se ter um animal no qual se possa tocar com liberdade, aceitação e puro carinho. Os benefícios, tanto para o animal quanto para a pessoa, são comprovadamente os mais variados. 

No decorrer da história, o toque e a sobreposição de mãos estão associados a incontáveis relatos de cura. Tocar fisicamente, objectivando o restabelecimento da saúde, é uma prática que remonta há mais de 15 mil anos. Pinturas em cavernas nos Pirenéus, primitivos entalhes em rocha, pinturas na China, Egipto e Tailândia apontam para este facto.  

Quando penso no efeito psicoterapêutico do toque, lembro-me de Jesus e de inúmeras curas realizadas a partir de seu amoroso toque e da imposição de suas mãos. Jesus sabia do poder que o contacto físico possui de transmitir amor, de curar, de aliviar a dor, e da sensação de bem-estar e acolhimento que transmite. O poder que resultava em cura – da mente, do corpo, dos sentimentos e relacionamentos – protagonizado por Jesus fluía muitas vezes pela mediação do toque. Vários são os relatos bíblicos a confirmarem este facto.  

Minhas filhas gémeas nasceram prematuramente e uma delas precisou ficar em incubadora para ganhar peso. Durante o período que lá esteve era minha obrigação, também, tocar seu frágil corpinho, sua delicada pele, com as pontas de meus dedos. Era interessante observar sua reacção ao toque. Infelizmente, há mais de vinte anos atrás eu tinha pouca consciência da importância do toque; sempre acho que a toquei menos que o necessário. Hoje sei que a experiência mais precoce, mais elementar, determinante e provavelmente mais dominante do bebé ao nascer, é a táctil.  

O contacto físico não é apenas um estímulo agradável, mas uma necessidade biológica. À medida que crescemos e os anos passam, as formas de contacto físico podem variar, mas não a necessidade delas. São muitos e graves os distúrbios psíquicos, somáticos e de relacionamento, advindos da insuficiência de toques na infância. Será que há alguém que tenha sido tocado devidamente, suficientemente e de forma satisfatória?  

Filhos de pais que expressam seus afectos em constantes toques sobressaem-se aos que são raramente tocados. Demonstram maior auto-estima, são mais sociáveis e mais tranquilos. Crianças que são alvos de amorosos toques têm mais carisma no olhar, pois a energia flui livremente. Claro que me refiro a pais psiquicamente saudáveis.  

Assim como o contacto físico pode carregar intenções carinhosas e afectuosas que geram conforto, ânimo e efeitos curadores, ele pode também ser veículo de intenções abusadas e traumatizantes. Vale lembrar que o toque trás consigo sua intenção e que se encontra gravada na pele a memória emocional capaz de recodificá-lo; portanto, é praticamente impossível disfarçar a intenção, a emoção de um toque. Não dá para tocar de modo superficial e declarar afecto nem tocar sexualmente e declarar que o desejo é apenas de amizade. Por mais que se afirme ou negue, o toque carrega em si a verdade sobre sua real intenção.  

A diferença entre um contacto acolhedor e amigável e um cujo objectivo é excitar sexualmente, não deixa dúvida. Não se trata de optar por este ou por aquele; ambos são importantes e necessários, podendo ser também terapêuticos. A questão, portanto, está no quando, como, em quem e para que.  

A ausência de toque é, também, um dos factores geradores de promiscuidade. Se os relacionamentos primários satisfizessem a demanda que as pessoas sentem de contacto físico, os relacionamentos secundários seriam bem mais escassos. Há muitos motéis cheios de pessoas carentes de toque. Para muitos, o sexo é a única forma que conhecem para satisfazer esta necessidade: a fome da pele. No entanto, o que na verdade sentem falta é de serem abraçados e tranquilizados por toques ungidos de gentileza, compreensão e ternura.  

Não são poucos os casos de pessoas que, após romper com um relacionamento pobre em toques e arranjar um parceiro onde o toque carinhoso é abundante, deixam "milagrosamente" suas actividades sexuais extraconjugais. A aventura sexual e a compulsão para o sexo, em muitos casos, não passam de desesperada carência de toque. E, faltando a magia do toque, de pouco adiantarão as condenações advindas da moral religiosa, da ameaça do inferno ou da promessa do céu.  

Destituídos de contactos, de toques, de abraços, de afagos no convívio familiar e entre amigos, recorremos cada vez mais aos profissionais do toque. E, assim, cresce a importância e a demanda por aqueles que suprem esta carência, quer sejam estes profissionais ou charlatães. Até mesmo cabeleireiros e barbeiros, conscientemente ou não, acabam suprindo, também, a nossa fome de toque.  

No que tange a oferecer alívio, segurança, ternura, conforto e confiança, nada se compara ao toque afectuoso. É um bálsamo milagroso para os momentos em que nos sentimos solitários, cansados, fragilizados ou assustados. Em tais circunstâncias, um afago, um abraço, um toque carinhoso é fonte de refrigério que revitaliza corpo e alma.  

Sem desconsiderar as diferenças e preferências entre os visuais, auditivos e cinestésicos, ou ainda entre os introvertidos e extrovertidos, não tenho dúvida de que o toque a todos faça bem. 

Quantos abraços você já ganhou hoje? Muitos, nenhum? Gostaria de ser abraçado carinhosamente, ser aconchegado nos braços de alguém? No que diz respeito a abraços, nada é mais verdadeiro do que a recomendação de Jesus "tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei vós também a eles." 

Ah! E não se esqueça que é dando que se recebe. Esta máxima não se aplica apenas aos boxeadores, vale para os carinhos, os toques e os abraços também.  

Se este artigo lhe foi importante, por favor, "me dê um toque”. 

 

 

Por Oliveira – fidelisf@hotmail.com   
Teólogo Espiritualista, Psicanalista Integrativo, Administrador, Escritor e Conferencista, Compositor e Cantor.  
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