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Uma história

Durante alguns anos, eu morei e trabalhei em Londres. Em minha primeira primavera em Londres, eu costumava caminhar todas as manhãs até a estação de trem, a caminho do trabalho. Passava por todos os jardins, em meio à exuberância de flores que desabrochavam na calçada depois da chuva. Todas as manhãs parecia que algo novo surgia em cada jardim.

Numa casa, minha passagem quase sempre coincidia com o que me parecia o horário de ir para o jardim de infância de uma mãe e sua filha pequena. O jardim da casa delas era particularmente bonito, e, margeando um dos lados, havia uma profusão de hortênsias. Pude observar, dia após dia, as flores se abrirem aos poucos e passarem do verde para um verde mais claro e daí para um sutil cor-de-rosa.

 Numa determinada manhã, depois de um raro dia cheio de sol na véspera, as hortênsias estavam no auge da cor. A transformação ocorrida durante a noite era de tirar o fôlego, e, no momento em que eu passava em frente à casa, ouvi a garotinha dizer: “Mamãe!! Mamãe, olhe!!!” Eu sabia que ela as vira também. A mãe disse devagar, enfatizando cada sílaba, como quem ensina a uma criança: “É, querida. São hor-tên-sias.”

Durante o resto da minha caminhada até a estação de trem, esse curto diálogo ficou na minha cabeça. Será que a mente dessa garotinha associaria para sempre a palavra hortênsia aos momentos de admiração e beleza? Diante de seu primeiro pôr-do-sol estonteante na praia, dos primeiros sinais de romance em seu coração, será que ela diria “Isso é tão… tão hortênsia”? Eu não sabia se ria ou chorava.

Isso já aconteceu a todos nós de tantas maneiras diferentes. Essa transformação da criança cheia de admiração para o adulto cheio de respostas, em geral para perguntas que sequer fizemos. Aprendemos a rotular as coisas, a compará-las e a separá-las em categorias —
hortênsia —, para acrescentá-las ao jugo cada vez mais pesado das respostas e convenções costumeiras e para começar a coletar outras mais.

Não quero dizer com isso que as respostas às vezes não sejam úteis. Elas são. Mas quando deixamos que a pilha de respostas vá crescendo sem nunca questioná-las ao longo dos anos — das gerações e até mesmo dos séculos —, é claro que acabamos em meio a
uma grande confusão.

OSHO- Faça o seu coração vibrar