O MELHOR DE NÓS

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O MELHOR DE NÓS

 

O MELHOR DE NÓS

"Em alguns momentos da leitura, me vi diante de um espelho que reflectia o melhor de mim. Um texto poético e encantador; faz o leitor recriar dentro de si a dinâmica do viver, além do desejo de degustar a vida em seus mínimos detalhes…"  Nelma Cabral Silva. 

A declaração supracitada, referindo-se ao meu artigo CELEBRANDO A VIDA, além de proporcionar muita satisfação, me remeteu a uma história que li no livro "O Mundo de Sofia" de Jostein Gaarder e algumas reflexões.  Vamos a história: 

"Era uma vez um escultor que vivia debruçado sobre um grande bloco de granito. Todos os dias ele dava umas batidinhas naquela grande pedra amorfa. Um dia um jovem foi visitá-lo.  

 – O que está procurando? Perguntou o jovem.  

 – Espere e verá.   Respondeu o escultor.  

Depois de alguns dias, o jovem voltou e o escultor tinha "tirado da pedra" um belo cavalo. Surpreso, o jovem ficou um longo tempo parado diante do cavalo, até que perguntou ao escultor: 

– Como é que você sabia que ele estava lá dentro?" 

Mesmo sem desejar enveredar neste artigo pelo ideal platónico com sua teoria das ideias ou pela percepção aristotélica da realidade, com seu entendimento de forma e substância, que ainda hoje balizam o pensamento, sobretudo ocidental, tanto nos domínios da ciência como da religião, não resisto à tentação de trazer à memória o enigma do "ovo e da galinha". Tal questionamento "o que veio primeiro?" continua a fomentar a divisão entre criacionistas e evolucionistas, entre os que ainda enxergam relevância em se posicionar para a defesa de uma destas teorias.  

Quanto ao questionamento do jovem na história citada "como é que você sabia que ele (a escultura do cavalo) estava lá dentro?", creio que para muitos o cavalo esculpido existia como ideia, no ideal do escultor, antes que a substância pudesse tomar forma. 

A aventura humana, presente na travessia da inconsciência para a consciência, pode ser comparada à transição da noite para o dia. Progressivamente, como espécie, nascemos do útero da escuridão inconsciente para o berço do despertar da consciência. Lembrando Jean Piaget, é possível afirmar que a história evolutiva da espécie humana repete as fases da "anomia, heteronomia e autonomia" pelas quais uma pessoa passa em seu processo natural rumo à maturidade. Neste sentido, penso ser possível dizer que, como espécie, já saímos da infância; caminhamos para o fim da "heteronomia", no período tumultuado da adolescência, em busca da autonomia.  

Nos primórdios, a relação do indivíduo com o meio social, tribo ou clã, dava-se da mesma forma que hoje um recém-nascido percebe a mãe; ou seja, inexiste a consciência do outro e consequentemente da própria individualidade: para o bebé, ele e a mãe são um só. Com o passar dos tempos – séculos e milénios – o ser humano começa a se perceber diferenciado, fragmentado, como a peça que saiu do quebra-cabeças. Surge a ilusão da posse de si mesmo e a compulsiva necessidade de outras posses. Nesta turbulenta puberdade existencial, ele é dominado por um ego fragmentado e desconectado do Eu. O sentimento dominante é de culpa, de medo, de perda do paraíso, o que a maioria dos teólogos cristãos entende como "queda" ou separação de Deus.     

Desde então, persiste a saudade do Jardim do Éden – ou seria Jardim de Infância? – O sentimento de desajuste, de inadequação, de desterro resultante da fragmentação individual, da rachadura psíquica, do afastamento do Self, do rompimento da unidade, do distanciamento do Uno. É o comportamento típico de adolescente. Entretanto, à adolescência segue-se a maturidade, quando progressivamente libertamo-nos do individualismo egocêntrico, rumo à consciente individuação reconciliadora e harmonizadora que nos preenche do sentido da nossa essência, a partir do nosso interior e não mais dos estímulos externos. Tal individuação restaura em nós a congruência, reconcilia o eu com o Ego, nos reconduz à Casa do Pai e nos reintroduzem na Cidade Santa, facultando-nos existir conscientemente ligados ao Eterno Mistério.   

Lembrando e parafraseando a já citada leitora, diria que aproximamo-nos do momento em que, buscando a individuação, seremos mais e mais confrontados com a essência divina desde sempre "guardada" em nós, à espera do momento do despertar, da manifestação, como a semente que germina no tempo certo. Ela espelhará o melhor de nós, oportunizando o recriar de uma nova dimensão de existência, propiciando o prazeroso degustar da vida em toda a sua abundância.  

Creio que nesta extraordinária odisseia somos monitora dos pelo Criador, que pacientemente acompanha o nosso desenvolvimento, que progressivamente vai se revelando em nós, diluindo nossas sombras em sua maravilhosa Luz. Durante a jornada, o Grande Mistério que com intimidade chamamos de Pai Nosso, nos agracia com Santos e Avatares que, como grandes faróis, orientam os marinheiros que navegam pelo misterioso mar da existência com destino à perfeição.  

Entretanto, necessitaremos cada vez menos de Luz externa, pois a luz Crítica brilhará cada vez mais intensa e límpida em nossos corações. Não precisaremos mais de templos, pois seremos a habitação plena de Deus. Não precisaremos de quem nos mostre o caminho, pois o Espírito Santo nós conduzirá a toda a verdade.  

Que nestes dias conturbados, incertos, e para muitos assustadores, busquemos no silêncio, na meditação e na oração, a manutenção da harmonia interna, crendo que um Novo Dia está nascendo. Sinta-se grato e privilegiado por viver em um dos períodos mais extraordinários da história humana.  

As turbulências geológicas e climáticas, as convulsões sociais, políticas e económicas são contracções de parto para uma nova eram, uma nova Terra onde o melhor de nós será revelado, quando seremos o que em essência somos: filhos e filhas do Amor e da Luz, filhos de Deus.  

Deus continua a esculpir em nós Sua Imagem e Semelhança; Ele ainda não terminou, o resultado vai ser glorioso. Relaxe e confie, deixe-o trabalhar. 

 

por Oliveira Fidelis Filho 
Teólogo Espiritualista, Psicanalista Integrativo, Administrador, Escritor e Conferencista, Compositor e Cantor. 


E-mail: fidelisf@hotmail.com
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1 Comment

Elisabete Milheiro

Março 16, 2011at 3:44 pm

Obrigado Oliveira, por despertar em mim esta reflexão!
Este artigo fez-me reflectir sobre o que temos dentro de nós. Muitas vezes há pessoas que mexem connosco por algum motivo; olhamos para elas, para as suas atitudes e parece que não conseguimos engolir…quando me disseram que todos temos as mesmas características, e que devia amar nos outros o que não gosto em mim, isso caiu-me como uma pedra. Como poderia eu amar em mim algo que não gostava nos outros? Então afinal o que eu não gosto nos outros é algo que não consigo aceitar em mim, e o outro é apenas o meu espelho, mostrando-me o que preciso trabalhar em mim? Pois, isso dói…mas é verdade, tenho experienciado muitos espelhos, me mostrando o que eu preciso trabalhar em mim; e ainda agora, me aconteceu isso, com uma amiga minha. Algo que lhe estava a incomodar, e eu, incomodada com o seu incomodo comecei a sugerir-lhe o que achava que ela poderia fazer, mas no caminho dei-me conta de que o que estava a dizer aplicava-se exactamente ao que eu precisava aplicar em mim mesma e aos meus problemas. No final, apercebi-me que ela apenas despertou em mim a solução para o meu próprio problema! Afinal, o que não é o outro senão uma parte de mim? E o problema do outro uma parte do meu também? Pois o problema em si pode parecer diferente, o seu contorno com formas diferentes, mas a forma como eu, ou TU, ou outro, escolhe lidar, é o mesmo para todos nós! QUEM EU ESCOLHO SER? QUEM EU DECIDO SER PERANTE ESTA SITUAÇÃO? QUE PARTE DE MIM ESCOLHO PARA LIDAR COM ESTA SITUAÇÃO? SERÁ QUE ESCOLHO A MENTE OU SERÁ QUE ESCOLHO O AMOR?
Todas estas questões são inerentes a todo e qualquer problema! E a solução está dentro de nós, e pode ser desperta através de qualquer situação, o importante e essencial é estar aberta para receber essa solução!
 

Obrigado! Obrigado Oliveira, por despertar em mim esta reflexão!

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Sim, é possivel criar uma vida nova!!!