SEGUINDO O CAMINHO DAS CÉLULAS

Lecionando na escola de medicina percebi que os alunos deste tipo de curso conseguem ser mais competitivos e sarcásticos que os de direito. Seguem literalmente a teoria de Darwin em sua luta para ser os “melhores” formandos após quatro anos de sangrenta luta na faculdade. Essa busca desesperada pelas melhores notas e por uma carreira brilhante, mesmo que para isso seja necessário derrubar ou humilhar os colegas, é a expressão literal do modelo darwiniano, mas para mim sempre pareceu o oposto do maior objetivo da medicina, que é a paixão pela cura.

Os meus estereótipos, porém, sobre os alunos de medicina caíram por terra durante o período em que vivi naquela ilha. Após a minha apresentação do curso, em que os chamei à luta, deixaram de se comportar como alunos convencionais de medicina. Trocaram a competitividade agressiva pela união de esforços e se transformaram em uma equipe disposta a sobreviver bravamente àquele semestre.

Os mais capazes ajudavam os mais fracos e, como consequência, todos se fortaleceram. Era uma harmonia surpreendente e bela de se observar.

A recompensa final foi um final digno de Hollywood. Apliquei exatamente o mesmo teste final que usava na Universidade de Wisconsin e o resultado não mostrou diferença alguma entre esses alunos “rejeitados” e seus colegas “elitistas” dos Estados Unidos.

Muitos chegaram a entrar em contato comigo algum tempo depois para me contar que quando voltaram para casa e começaram a trabalhar com os alunos que haviam cursado universidades norte-americanas descobriram que tinham até mais conhecimentos e domínio dos princípios que regem a vida das células e dos organismos do que eles.

Claro, fiquei extasiado ao ver que os meus alunos haviam realizado um verdadeiro milagre académico. Mas levei alguns anos para perceber como eles conseguiram. Na época, achei que o formato do curso é que havia ajudado. Ainda acredito que comparar a biologia das células à biologia humana é a melhor maneira de apresentar o conteúdo. Mas hoje, que me considero ainda mais maluco, no melhor estilo doutor Dolittle, vejo que boa parte do sucesso dos meus alunos ocorreu porque eles modificaram a sua atitude e  passaram a agir de maneira diferente da dos seus colegas nos Estados Unidos.

Em vez de se compararem aos estudantes de medicina de lá, resolveram adotar o princípio das células, que se unem para viver melhor e evoluir. Jamais lhes disse  que adotassem esse comportamento, até porque eu mesmo ainda seguia o estilo e
muitos dos dogmas da ciência tradicional. Mas fico feliz ao perceber que eles seguiram intuitivamente nessa direção assistindo ás minhas aulas sobre a habilidade das células de se unir de maneira cooperativa para formar organismos mais complexos e altamente eficazes.

Outro motivo para o sucesso deles que hoje vejo mais claramente é o fato de eu não ter enaltecido apenas as células durante o curso, mas os alunos também. Sentiram-se motivados ao ouvir que tinham tanta capacidade quanto qualquer estudante de medicina que estivesse fazendo o curso nos Estados Unidos. Vou mostrar nos próximos capítulos que muitos de nós vivemos de maneira limitada não por falta de alternativas, mas por acreditar que elas não existem.

Bem, hoje posso afirmar que já enxergo algumas delas. Basta dizer que, após quatro meses vivendo no paraíso e lecionando de uma maneira que me permitiu ter uma noção ainda mais ampla da vida das células e das lições que elas podem nos ensinar, comecei a deixar de lado a poeira de derrotismo da genética, da programação paterna e dos conceitos darwinistas de que somente os melhores sobrevivem, para abraçar definitivamente a nova biologia.

 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora