Só Por Hoje!

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Só Por Hoje!

 

Só Por Hoje!

 

Hum, já estou nisto há tanto tempo, nesta coisa da Recuperação; aquele está há menos tempo que eu não me pode ajudar. Eu cá me oriento sozinha. Sim, eu já tenho ferramentas suficientes. Basta seguir as “regras” e tudo correrá bem. Só preciso fazer os trabalhos, crescer, e pronto! Está tudo bem. Os pensamentos? Vão e vêm!…

Acho que por vezes nos esquecemos até do que significa essa palavra…Recuperação…

Durante algum tempo eu a via como um bicho de 7 cabeças. Uma palavra tão forte, tão séria, tão sisuda…uma obrigação (pois não estar dentro dela era igual a sofrimento…).

Tenho vindo a perceber que, o estar em Recuperação não tem nada a ver com obrigação, com esforço, com querer agradar alguém, ou mostrar a alguém que somos capazes, ou qualquer outra coisa…no fundo, no fundo acho que ainda não tomei realmente consciência do que ela quer mesmo dizer… Penso que ela tenha mais a ver com uma escolha – uma escolha consciente daquilo que eu quero para mim, daquilo que eu quero ser, sentir, ver, ouvir…tudo na vida é uma escolha…

Eu sou adicta á comida, mas muito em especial sou adicta aos doces.

Tenho até uma certa dificuldade em dizê-lo, pois isso responsabiliza-me…fico até irritada de o dizer, pois até parece que só por isso tenho que estar bem…como se isso fosse uma grande chatice…

Mas realmente tem alturas em que me apetece mesmo comer doces, e umas vezes consigo rir-me desses pensamentos ou vontade e decidir que “Só por hoje” não os vou comer, mas outras vezes o que faço é fugir, fugir desses pensamentos, porque não consigo dizer a mim mesma que não como porque não quero, e não porque não posso…

O não posso tira-me do sério, obviamente…que sofrimento…então eu não posso comer aquilo que eu tanto quero? E porquê? Porque é que Deus me deu esta terrível doença em que eu não posso fazer o que mais gosto? Porquê??? Com que direito?

Mas o não quero já é diferente. Eu não como porque não quero! E o “Só por hoje” funcionaria perfeitamente se de vez em quando eu não me esquecesse de o fazer…

E ultimamente a coisa tornou-se uma ideia fixa. Hoje disse a uma amiga minha – estou cansada! Cansada de não poder ser livre, de não poder comer o que me apetecer! Que raiva que não posso comer doces! Eu quero comer um bolo, uma mousse, um chocolate! Eu quero comer, e não quero saber! Eu só estou á espera de uma oportunidade para o fazer, porque eu quero fazê-lo! Só é proibido me Culpar! De resto posso comer o que eu quiser! Eu quero ter uma relação saudável com a comida, e quero comer quando me apetecer! Estou farta desta rigidez, de só tomar as 3 refeições principais, e de não comer doces, estou mesmo cansada disto!

E ela perguntou-me:

 -Mas tu estás farta de não poderes comer ou estás farta dos teus pensamentos de que não podes comer? Tens feito o “Só por hoje”?

-não…para isso não…

-Porque é que deixas-te de comer doces?

-Porque o meu terapeuta disse-me que sou adicta aos doces…

Grande resposta… acho que até ficaria melhor se tivesse respondido algo do género: Porque cheguei á conclusão que os usava como uma droga, para conseguir lidar com as minhas emoções…

Mas…eu a pensar que ela, por estar nisto há pouco tempo, me iria passar a “mão pelo pêlo”, e dizer-me: Come filha come, um pouquito não te fará mal…

E ela disse-me: Se quiseres podes comer, a escolha é tua!

Também, apertas-te tanto o teu ego, restringiste-te tanto, criando uma cerca foste apertando apertando…do que estavas á espera? Não fizes-te já isto ciente de que irias chegar aqui, a este ponto?

Porque deixas-te de comer fruta? O teu corpo também precisa de doce, senão ele não existiria! Não tens que ser tão rígida assim, podes fazer doces com frutas, sem adicionares o açúcar. E tens tantas frutas que podes comer!

Hum, e esta dos doces sem açúcar ficou aqui a bailar na minha cabeça como uma alternativa aliciante… ou como mais uma desculpa?…

 Limitares-te às 3 refeições principais, rigidez, rigidez? Claro que isso iria acontecer! Mas tu és livre! Ou escolhes que “só por hoje” não vais comer, ou então comes, a decisão é tua!

Pois, ela lixou-me bem lixada, pensei eu…se ia á procura de mais uma desculpa ainda levei um baile de uma “principiante” na coisa, e isso irritou-me tanto…Mas eu sabia que era verdade…não havia como negar…acabei por lhe dar os Parabéns, pois tinha-se portado muito bem, mesmo que isso me irritasse profundamente…

Mais tarde reflecti sobre isso.

Somos tanto professores como estudantes, e no fundo somos todos farinha do mesmo saco, procuramos todos o mesmo.

 Quem sou eu para achar que sou mais que o outro? Para achar que lá porque tenho m ais tempo disto que sei mais do que o outro? Se soubesse não teria chegado a esse ponto! Além de que a Recuperação é de 24h, o resto não conta, é Só por hoje!

E que arrogância é essa afinal? De achar que só os outros é que têm que pedir ajuda, mas eu não! Ou de tomar os outros como estúpidos, achando que podemos manipula-los para fazermos o que queremos…para serem os nossos bodes expiatórios?

No fundo, no fundo eu vinha já preparando esta recaída há muito tempo, pois volta e meia alimentava esses pensamentos. Cheguei a pensar muitas vezes: fogo, naquele dia quando me ofereceram um bolo, porque é que eu não comi? Estou aqui a querer comê-lo, mas tenho medo do que vou sentir, tenho medo de perder tudo o que já consegui, de todos os passos que já subi, e agora iria estragar tudo, só por um bolo? Mas seria mesmo só um? Será que eu conseguiria me ficar por um só? Se tivesse comido naquela altura já saberia o que acontece!

Realmente eu posso comer o que eu quiser, quando quiser…então porque não o faço? Porque tive que procurar uma desculpa para o fazer? Porque tive que tentar manipular tudo e todos para me levarem onde eu queria ir? Para poder atribuir a culpa aos outros ficando com um fardo mais pequeno para mim?

Sim, eu tenho algumas dificuldades em lidar com essa torre: a culpa… então e ter uma RECAIDA (outra palavra que é um bicho de 8 cabeças…) destas sem desculpa?…

Realmente eu tenho a escolha. Se eu quiser eu posso comer.

 A Decisão é minha, ninguém a poderá tomar por mim.

 

Obrigado pela oportunidade de me experienciar através da partilha!

Nota: o que é aqui escrito é a minha experiência. O que se pretende aqui é dar a conhecer experiências do dia-a-dia, que poderão ser úteis a quem se identificar com elas. Isto não invalida o facto de que a verdade está em constante alteração, assim como também a nossa consciência, que com as nossas experiências vai evoluindo.

Não se esqueçam: A única coisa que tenho como garantia nesta vida é a mudança.

Composto e Postado por:

Elisabete Milheiro


4 Comments

Vânia Pereira

Maio 20, 2011at 11:06 am

Olá Elisabete
Parabéns e Obrigado por esta partilha,de facto a tua adição aos doces não te deixa ser livre mas a tua rigidez em relação á ideia de não puderes come los também te vai aprisionar.Isto também aconteceu comigo quando tinha mais ou menos 16 anos, decidi que só ia ingerir alimentos saudáveis, foi uma tortura.Porque em vez de decidir que queria ingerir alimentos saudáveis, decidi que não iria ingerir os que não eram saudáveis, e concentrei me por completo neles.
Foi um desastre a partir desse dia ainda fiquei com mais  vontade de comer mais "porcarias" para qualquer lado que olhava só via coisas que não podia comer, havia como que uma perseguição…
Quando comecei a aperceber me disso deixei de me bloquear a esses alimentos e a partir dai a obsessão que tinha por eles desapareceu.
 
Elisabete Obrigado pela tua partilha.
bj

Elisabete Milheiro

Maio 20, 2011at 3:09 pm

Obrigado pelo teu testemunho Vânia,
A Recuperação é um caminho. Um dia de cada vez. Só por hoje.
Realmente torna-se um sofrimento enorme quando nos concentramos naquilo que "não podemos " fazer. No caso do adicto, seja ele a que substância for, como pode dizer que a partir de hoje não consome mais? È impossível…é horrível até. Mas se Eu disser que Só por Hoje não vou comer doces, ai já está mais acessível, já consigo fazer esse esforço, só por hoje. O interessante é que acaba por não ser um esforço assim tão grande, parece diluir-se esse fardo enorme, pois eu escolho, decido, que só por hoje não o farei, amanhã não sei, posso até decidir outra coisa, mas só por hoje faço esse esforço consciente de estar atenta aos meus pensamentos; é como que um comprometimento comigo mesma. Está a Ajudar-me muito.
Obrigado Vânia.

Mafalda

Maio 23, 2011at 6:36 pm

Amiga Elisabete, comigo nunca aconteceu essa adicção à comida, até hoje, mas é claro que tenho e tive outras, pois como tu dizes um adicto "arranja" sempre qualquer coisa, é essa a natureza dele. A minha adicção prende-se muito aos pensamentos de uma forma generalizada. Compreendo perfeitamente o não posso e como tu tento substitui-lo pelo não quero, por vezes não é assim tão fácil. Estamos a aprender constantemente connosco e principalmente com os outros, o que nos torna iguais a eles. Eu lembro-me muito de uma frase do Só por hoje, que me tem ajudado a viver o dia-a-dia o melhor que sei e posso (é a última da sequência do Só por hoje). Fica bem e boa recuperação, estamos sempre a recuperar um dia de cada vez.
Obrigada amiga, um beijo grande
Mafalda Carvalho

Elisabete Milheiro

Maio 23, 2011at 9:06 pm

Olá amiga Mafalda, Obrigado pelo teu testemunho!
A primeira vez que li o Só por Hoje, essa foi a frase que me atraiu mais, eu tinha tantos medos, tantos…sim, é uma frase que ajuda muito; eu sinto que aquela que se adequa mais a mim é a 3ª – Só por hoje vou tentar ajustar-me á realidade e não tentar adaptar tudo aos meus desejos. vou aceitar a minha sorte como ela vier e vou moldar-me a ela.-isto porque eu tenho tendência para tentar adaptar tudo aos meus desejos…
Aliás, elas são todas importantes, se formos a ver todas elas são de uma sabedoria imensa, e realmente quando as aplicamos faz-se Luz!
Quando dizes que "A minha adicção prende-se muito aos pensamentos de uma forma generalizada"´- eu também sinto isso, qualquer coisa serve para não estar AQUI, AGORA. Não é só a comida. Nós criamos a nossa própria realidade. Nós criamos todas essas ilusões, só para não estarmos a sentir a vida. Não me perguntes porquê. Provavelmente essa foi a forma que encontrámos antes para lidar com as nossas emoções – ou com o facto de não conseguirmos lidar com elas – e Agora precisamos nos libertar dessa programação. E para isso basta falar! Eu sei que ás vezes custa falar de nós, daquilo que sentimos, dos nossos pensamentos, especialmente quando sabemos que não fazem sentido. Mas quando não falamos deles, eles mantêm-se por ali, e voltam cada vez mais vezes, até se tornarem um padrão. Quando falamos deles, e nos rimos da sua desadequação, sem medo de sermos julgados ou criticados ou gozados (mais desculpas do Ego), eles perdem o poder. Precisamos é estar atentos para os apanhar no principio, senão, o melhor a fazer é não nos culparmos!
Obrigado Amiga, por partilhares a tua riqueza! Obrigado! 

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