A EVOLUÇÃO SEM AS MANDÍBULAS DA MORTE

Embora Darwin tenha sido o mais famoso dos evolucionistas, o primeiro cientista a estabelecer a evolução como um fato foi o grande biólogo francês Jean-Baptiste de Lamarck (Lamarck, 1809, 1914, 1963). Até mesmo Ernst Mayr, o arquiteto do neodarwinismo (uma versão moderna da teoria de Darwin, que incorpora a genética molecular do século 20), concorda que Lamarck foi de fato pioneiro na área.

Em seu clássico de 1970, Evolution and the diversity of life (Mayr, 1976, p. 227) [A evolução e a diversidade da vida], ele declara: “A mim parece que Lamarck tem um bom motivo para ser denominado ‘fundador da teoria da evolução’, e assim échamado por diversos historiadores franceses… ele foi, de fato, o primeiro autor a dedicar um livro inteiro à apresentação de uma teoria de evolução orgânica. E foi o primeiro a apresentar todo o sistema de animais como produto da evolução”.

Lamarck não apenas apresentou sua teoria 50 anos antes de Darwin, como ofereceu uma explicação menos drástica para os mecanismos da evolução. Sua teoria diz que a evolução está baseada em uma interação cooperativa entre os organismos e seu meio ambiente, que lhes permite sobreviver e evoluir em um mundo dinâmico.

Afirmava que os organismos passam por adaptações necessárias à sua sobrevivência num ambiente que se modifica
constantemente. O mais interessante é que a hipótese de Lamarck sobre os mecanismos da evolução se ajusta muito bem à explicação dos biólogos modernos sobre como o sistema imunológico se adapta ao meio ambiente da mesma maneira que descrevi acima.

A teoria de Lamarck foi duramente criticada pela Igreja. O conceito de que os seres humanos evoluíram a partir de formas de vida mais primitivas foi considerado heresia. Lamarck também não recebeu o apoio de seus colegas cientistas. Como eram todos cria-cionistas, ridicularizaram suas ideias.

Um biólogo de desenvolvimento alemão, August Weismann, foi ainda mais longe quando fez testes para provar que, ao contrário do que Lamarck dizia, os organismos não transmitem traços ou aprendizado sobre sobrevivência adquiridos em sua interação com o ambiente. Numa das suas experiências, cortou a cauda de um casal de ratos e colocou-os juntos para que procriassem. Dizia que, se a teoria de Lamarck estivesse correta, os pais transmitiriam à prole a ausência de cauda.

Mas os filhotes nasceram com cauda normal. Weismann repetiu então a experiência com 21 gerações, mas nenhum filhote nasceu sem cauda, o que o levou a concluir que a teoria de Lamarck estava errada.

A experiência de Weismann, porém, não testava realmente a teoria de Lamarck. Sua hipótese era que as mudanças evolucionárias levam “imensos períodos de tempo”, nas palavras do biógrafo L. J. Jordanova. Em 1984, Jordanova escreveu um artigo mostrando que a teoria de Lamarck “era fundamentada” em uma série de “proposições”, incluindo: “… as leis que governam organismos vivos produziram formas muito complexas em imensos períodos de tempo” (Jordanova, 1984, p. 71).

A experiência de Weismann, que durou cinco anos, obviamente não era suficiente para testar a teoria. Outra falha na experiência é que Lamarck jamais afirmou que todas as mudanças em um organismo seriam transmitidas a seus descendentes. Segundo a sua teoria, os organismos adquiriam traços (como mudanças em formato ou tamanho da cauda) quando se tratava de mudanças necessárias à sua sobrevivência. Embora Weismann pensasse que os ratos não precisavam de sua cauda ninguém perguntou a eles qual era sua função para a sobrevivência da espécie!

Apesar de todas as falhas, o estudo dos ratos sem cauda ajudou a destruir a reputação de Lamarck, que acabou sendo ignorado.

O evolucionista C. H. Waddington, da Universidade de Cornell, escreveu em The evolution ofan evolutionist (Waddington, 1975, p. 38) [A evolução de um evolucionista]: “Lamarck foi o único na história da biologia a ter o nome ridicularizado e a sofrer abusos por suas teorias. A maioria dos cientistas que propõem novas teorias acaba se tornando ultrapassada, mas poucos autores tiveram seu trabalho tão criticado e rejeitado mesmo dois séculos depois, a ponto de os céticos acreditarem que ele tinha a mente perturbada. É preciso admitir que Lamarck foi julgado injustamente”.

Waddington escreveu estas palavras 30 anos atrás. Hoje, a teoria de Lamarck está sendo reavaliada sob a perspectiva da nova ciência, que não considera totalmente erradas as suas ideias nem totalmente corretas as de Darwin. A manchete de um artigo do famoso periódico Science em 2000 já indicava grandes mudanças: “Será que Lamarck estava totalmente enganado?” (Balter, 2000).

Um motivo para os cientistas reverem a teoria de Lamarck é que os evolucionistas levam em consideração a grande importância da cooperação na manutenção da vida na biosfera. Inúmeras experiências científicas já mostraram as relações simbióticas da natureza.

Em Darwirís blind spot (Ryan, 2002, p. 16) [O ponto negro de Darwin], o físico inglês Frank Ryan narra uma série de relações, incluindo a de um camarão amarelo que agarra a comida enquanto seu parceiro, um peixe-gobi, o protege de seus predadores e o de uma espécie de caranguejo que carrega uma anémona rosa sobre sua casca. “Peixes e polvos se alimentam de caranguejos, mas os desta espécie têm um sistema de defesa a mais. Quando predadores em potencial se aproximam, a anémona abre seus tentáculos coloridos e brilhantes, lançando dardos envenenados em sua direção.

Eles rapidamente se afastam e vão procurar alimentos em outro lugar” e a brava anémona se beneficia com esta parceria, pois fica com todos os restos dos alimentos do caranguejo.

Mas o conceito de cooperação na natureza vai muito além desses exemplos simples. “Os biólogos estão descobrindo cada vez mais associações entre animais que evoluíram paralelamente e continuam a coexistir, desenvolvendo em seu interior
microorganismos que são necessários para a sua saúde e desenvolvimento”. Isso é descrito num artigo recente da Science,
chamado “Sobrevivemos com a ajuda de nossos (pequenos) amigos” (Ruby et al., 2004).

O estudo desses relacionamentos é um ramo da ciência que hoje está se expandindo rapidamente, chamado
“Biologia de sistemas”.

O mais engraçado é que nas últimas décadas aprendemos a combater os microorganismos usando os mais diferentes produtos químicos, de sabão antibacteriano a antibióticos. Mas essa prática simplista ignora o fato de que diversas bactérias são essenciais para a nossa saúde. Um exemplo clássico de como os seres humanos se beneficiam dos microorganismos é o das bactérias presentes no nosso sistema digestivo, essenciais para a nossa sobrevivência.

Agindo no nosso estômago e trato intestinal, elas ajudam a digerir os alimentos e permitem a absorção das vitaminas que mantêm a nossa saúde. Esta cooperação entre micróbios e humanos é o motivo pelo qual o uso desenfreado de antibióticos pode comprometer a sobrevivência de nossa espécie. Esses medicamentos eliminam microorganismos nocivos ao nosso
organismo, mas também matam indiscriminadamente aqueles que são essenciais para a nossa saúde.
Estudos recentes da ciência do genoma revelam mais um tipo de mecanismo de cooperação entre as espécies. Alguns organismos parecem integrar suas comunidades celulares partilhando seus
genes.

Antes pensava-se que os genes eram transmitidos exclusivamente à prole de cada espécie e por meio da reprodução. Agora os cientistas estão descobrindo que os genes podem ser compartilhados não apenas entre os membros da mesma espécie, mas também entre outras. Esse processo de transferência genética acelera a evolução, pois os novos organismos podem adquirir experiências “já aprendidas” pelos outros (Nitz et al, 2004; Pennisi, 2004; Boucher et al, 2003; Dutta e Pan, 2002; Gogarten, 2003).

Com essa troca de genes, os organismos não podem mais ser vistos como entidades separadas. Não existe mais a suposta divisão entre as espécies.

Daniel Drenn, gerente do departamento de energia do projeto Genoma, declarou à Science em 2001 (294:1634): “… não temos mais como simplesmente qualificar espécies” (Pennisi, 2001).

Mas essa troca de informações genéticas não ocorre por acidente. Trata-se de um método que a natureza utiliza para aumentar as chances de sobrevivência da biosfera. Como já mencionei, os genes são os arquivos de memória das experiências aprendidas pelos organismos. Essa nova descoberta de que há troca de genes entre as espécies mostra que as experiências podem ser compartilhadas por todos os indivíduos que compõem a grande comunidade da vida.

Obviamente, o conhecimento desse mecanismo de transferência torna a engenharia genética ainda mais perigosa. Por exemplo: experiências simples com genes de tomates podem ir muito além daquilo que se imaginava e acabar alterando toda a biosfera de maneira irreversível. Um estudo recente mostra que, quando humanos ingerem alimentos geneticamente modificados, os genes criados artificialmente se misturam e alteram as características das
bactérias benéficas do intestino (Heritage, 2004; Netherwood et al, 2004).

E a transferência de genes entre vegetais geneticamente modificados e espécies nativas deu origem a espécies e sementes altamente resistentes mas de potencial ainda não conhecido (Milius, 2003; Haygood et al, 2003; Desplanque et al, 2002; Spencer e Snow, 2001).

Os engenheiros geneticistas jamais levaram em consideração os possíveis resultados das suas experiências ao introduzir organismos geneticamente modificados no meio ambiente. Agora estamos começando a sentir os efeitos dessa omissão à medida que esses genes se espalham, causando alterações em outros organismos do meio ambiente (Watrud et al, 2004).

Segundo os evolucionistas genéticos, se não aprendermos as lições da natureza, que nos ensinam a importância da cooperação entre as diferentes espécies, podemos pôr em risco o destino da raça humana. Precisamos avançar além das teorias de Darwin, que enfatizam apenas a importância dos indivíduos e entender a importância da comunidade.

O cientista inglês Timothy Lenton apresentou evidências de que a evolução depende mais da interação entre diversas espécies do que a interação do indivíduo somente com a sua própria espécie. Só sobrevivem os grupos que melhor se adaptam ao ambiente, não apenas os seus indivíduos.

Num artigo publicado pela Nature em 1998, Lenton declara que devemos concentrar a nossa atenção nos indivíduos e no seu papel na evolução: “… temos de considerar a totalidade dos organismos e o seu ambiente físico para entender quais traços persistem e são dominantes” (Lenton, 1998).

Lenton concorda com a hipótese de Gaia, de James Lovelock, segundo a qual a Terra e todas as suas espécies constituem um único organismo vivo e interativo. Todos os que defendem essa ideia concordam que, ao afetarmos o equilíbrio desse
super-organismo, a que Lovelock chama de Gaia, seja pela destruição das florestas, da camada de ozono seja pela alteração genética dos organismos vivos, podemos ameaçar a sua sobrevivência e, consequentemente, a nossa.

Estudos recentes do Conselho Britânico de Pesquisas do Meio Ambiente [Britairís Natural Environment Research Council]
confirmam essa possibilidade (Thomas et al, 2004; Stevens et al, 2004). Embora já tenha havido cinco extinções em massa na história do nosso planeta, todas parecem ter sido causadas por eventos extraterrestres, como um cometa que se chocou contra ele.

Um dos novos estudos conclui que o “mundo natural está passando pela sexta extinção” (Lovell, 2004). Mas desta vez o motivo não vem de fora. Segundo Jeremy Thomas, um dos autores desse estudo, “esta extinção está sendo causada por um organismo animal: o homem”.

 

Bruce H. Lipton,  A BIOLOGIA DA CRENÇA , Butterfly Editora