Acontece muito frequentemente que um cansaço prolongado dê lugar à depressão, e também ouvirem-se muitas vezes os deprimidos queixarem-se de estar cansados.

Mas o cansaço por excesso de trabalho e o cansaço da depressão são dois cansaços muito diferentes e quem, sentindo-se frequentemente cansado, teme ser um deprimido, talvez não tivesse estes temores se tivesse experimentado quanto mais
doloroso é o cansaço por depressão do que o incómodo que acompanha o cansaço de mera fadiga.

Diferentes cansaços

De facto, enquanto em certos casos, pode até ser agradável sentir-se cansado com uma fadiga que representa o necessário preço a pagar pela obtenção de certos resultados e objetivos, o cansaço por depressão, mesmo quando a depressão é catalogada como leve, nada tem de agradável; pelo contrário, é acompanhada de algo de opressivo e de insuportável, difícil de poder ser vencido por um bom sono, como quase sempre acontece com o cansaço e o torpor por excesso físico e mental.

O cansaço por fadiga cede, de facto, ao repouso e eventualmente a algum agradável prazer, quanto o cansaço do deprimido pode até ser agravado com tudo isto, porque repouso e trabalho frequentemente representam para o deprimido mais um incentivo para se dobrar sobre si mesmo e sobre os pensamentos e medos de que se devia afastar o mais possível.

Leopardi, que de modo nenhum desconhecia a solidão e a depressão, afirmou acerca do repouso:
«Porque é que jazendo / numa boa comodidade ociosa, / se satisfaz qualquer animal: / mas a mim, se estou em repouso, / O tédio ataca?».

O cansaço do deprimido


No deprimido, o cansaço não se refere só ao sentido muscular e ao sentido nervoso, mas também e sobretudo ao sentido afetivo. Lembro uma pobre senhora há algum tempo numa casa de saúde para à depressão; depois de ter recebido os seus dois filhos que já não via há algum tempo, dizia-me: «É como se tivesse diante de mim dois cachorrinhos a saltarem para cá e para lá».
Quem experimentou, mesmo que durante pouco tempo, este tipo de cansaço fala dele com terror e faz tudo para o esquecer.

O filósofo e teólogo Romano Guardini, ao referir-se à depressão, escreveu:

«É demasiado dolorosa e tem raízes demasia￾do profundas de modo que não pode ser abandonada nas mãos dos psiquiatras».

E ele, que foi um homem comedido e prudente, chegou a pensar que poderia haver algo demoníaco nas formas depressivas mais graves, nas mais carregadas de cansaço mortal e pelas quais a vida pode chegar a voltar-se contra si mesma.

Há bem poucos dias, telefonou-me um amigo que, depois de alguns anos de relativa tranquilidade, recaiu numa forma
Dizia-me: grave de depressão.

«Esta manhã, acordei dos soníferos mais cansado do que nunca. Há já algumas estou semanas que terrivelmente cansado, dia e noite, Um cansado que, em vez de me fazer dormir, me mantém continuamente desperto a perseguir um pensamento que não é um pensamento, mas uma espécie de sonho, de pesadelo cheio de angústia. Angústia de quê? Angústia porquê? Angústia e basta! Diz-me que devo fazer mais porque atingi o fim. Não me dês mais ansiolíticos ou antidepressivos. Já os experimentei todos sem resultado. Ajuda-me sei porque não que mais fazer».

Como ajudá-lo? Como ajudar quem está a ceder prestes é talvez a fazer o que mais se teme nestes casos?

Uma coisa é ler livros e artigos sobre a depressão, sobre os seus cansaços, como até parecer estar na moda, e outra coia é tratar diretamente com os deprimidos, especialmente se estes deprimidos são amigos nossos, que conhecemos quando ainda eram homens livres e talvez cheios de projetos e de esperanças. Vê-los depois tão mudados e tão transtornados, faz realmente pensar que alguma coisa mudou radicalmente no seu íntimo.

Ainda bem que nem todas as depressões são da gravidade da do meu amigo, e na sua maior parte devem se considerar como pequenas depressões, não sendo mais que simples melancolia, um aborrecimento de si e da vida, mas permanecendo dentro dos limites do suportável.

In – Cansaço e depressão – Francesco Canova