Alcoolismo – Conceito e Definição

Desde os mais remotos tempos que são conhecidos os efeitos patológicos causados pelo uso de bebidas fermentadas. Elementos arqueológicos e bibliográficos, entre outros, permitem-nos pensar que a utilização das bebidas alcoólicas pelo Homem e o conhecimento dos seus efeitos no Indivíduo remontam a algumas dezenas de milhar de anos antes da era Cristã. Uma das mais antigas referências diz respeito a um baixo-relevo feito, muito provavelmente, 30 000 AC.

Admite-se que, no período paleolítico, o Homem tomou conhecimento, de forma acidental, dos efeitos da ingestão do produto fermentado a que o mel, recolhido e armazenado em recipientes artesanais, dera origem. No período neolítico, a cerveja e o seu fabrico eram já do conhecimento do Homem.

Egípcios, gregos e romanos são exemplo de povos que conheceram e desenvolveram as artes do fabrico de bebidas alcoólicas, assim como os efeitos do seu uso pelo Homem. Referências mais ou menos ricas e completas povoam as obras artísticas e literárias que estes povos nos legaram. A destilação do vinho, dando origem a bebidas mais alcoolizadas, parece ter-se generalizado na Europa a partir do século XI, tomando em França, por exemplo, extraordinário vulto com as facilidades concedidas pelo Estado aos “destiladores”.

Embora os efeitos do álcool sejam conhecidos desde a Antiguidade, em cujas obras literárias se encontram mesmo numerosas referências à necessidade de os evitar, os fenómenos do alcoolismo crónico eram, então, mais ou menos ignorados.

Só a embriaguez era referida entre as perturbações ligadas ao uso de bebidas alcoólicas. O conceito de Alcoolismo como doença, e não apenas vício, desenvolve-se só na segunda metade do século XIX.

A França foi dos países que mais cedo começou a valorizar o crescente consumo médio anual de álcool, encarando com certa preocupação a capitação anual superior a três litros de álcool e a elevada proporção do número de tabernas por habitante.

A consciencialização do perigo que tais factos representam para a Saúde Pública, os progressos no conhecimento da fisiologia da célula nervosa e dos efeitos do álcool sobre o sistema nervoso estiveram certamente na base de uma abordagem científica dos problemas ligados ao consumo de álcool.

O estudo e primorosa descrição do quadro clínico de Delirium Tremens, por Thomas Sutton, autor que pela primeira vez valorizou, na compreensão patogénica do mal, os hábitos alcoólicos excessivos e continuados do doente, constituiu o início da abordagem médica à doença alcoólica e sua patogenia. A Cuming, Magnan e outros se ficam a dever descrições importantes de alguns aspetos da patologia do alcoolismo.

Contudo, como o doente alcoólico crónico só tardiamente, em avançadas fases da sua morbilidade mental, daria entrada nas instituições psiquiátricas, os dados relativos aos internamentos e tratamento destes doentes só surgem referidos em obras de psiquiatras do século XIX, época em que os alcoólicos representavam já uma considerável proporção da população de manicómios e estabelecimentos afins, sendo o abuso de bebida alcoólica considerado mais como “causa de loucura” do que doença em si mesmo.

O tratado sobre Alcoolismo Crónico, publicado em 1851, por Magnus Huss, médico sueco, refere o alcoolismo crónico como uma síndrome autónoma, definindo-a como “forma de doença correspondendo a uma intoxicação crónica”, e descrevendo “quadros patológicos desenvolvidos em pessoas com hábitos excessivos e prolongados de bebidas alcoólicas”.

Constatando este autor que numerosas situações mórbidas do Homem (doenças do fígado e de outros órgãos digestivos, doenças do sistema nervoso, doenças do miocárdio, entre outras) estavam relacionadas com o consumo exagerado de bebidas alcoólicas, designou-as de alcoolismo, apontando o álcool etílico como agente patogénico comum.

A partir de então, várias definições têm surgido, vários autores têm tentado definir o Alcoolismo, dezenas e dezenas de definições têm sido elaboradas, sem que nenhuma satisfaça inteiramente.

Pierre Fouquet, em 1955, ao fazer uma revisão de trabalhos sobre o assunto, concluía: “…O conceito de alcoolismo, a sua patogenia, classificação nosográfica, seus fundamentos, sua realidade… continuam a ser noções muito pouco claras”.

Em muitos casos, as tentativas de definição seguem caminhos mais propriamente de classificações e tipos de alcoolismo: “Alcoolites, alcooloses e somalcooloses” (Fouquet); “Alcoolomania primária, secundária e mista” (Perrin); “Alcoolismo de tipo alfa, beta, gama, delta e epsilon” (Jellinek).

Quase meio século volvido sobre estas considerações, as mesmas dificuldades persistem, embora nos últimos anos a investigação, quer clínica e laboratorial, quer epidemiológica, tenha vindo a propiciar uma renovada compreensão etiopatogenica do fenómeno de alcoolização e doença do consumidor de álcool.

Já em 1940, a escola americana de Jellinek, atenta à extensão dos problemas relacionados com o álcool, à complexidade dos seus efeitos, à multiplicidade e interacção de forças e vectores na sua origem, deu passos neste sentido, fazendo colaborar pela primeira vez, em estudos sobre Alcoolismo, médicos, sociólogos, psicólogos, juristas, economistas.

Nas primeiras comunicações científicas internacionais da escola de Jellinek surgiu um novo conceito, alargado, de Alcoolismo e apontam-se vantagens de uma colaboração interdisciplinar.

Em 1945, este movimento científico sobre Alcoolismo estende-se à Europa, surgindo em França o CNDCA (Comité National de Défense Contre l’Alcoolisme) e na Suíça o ICAA (International Council on Alcohol and Addictions).

Mas é à Organização Mundial de Saúde que se deve o grande empenhamento na definição da problemática ligada ao álcool. Na realidade, definir a situação que vulgarmente é designada por Alcoolismo, limitando-se aos efeitos do consumo excessivo e prolongado de bebidas alcoólicas, que acaba por determinar um estado de «dependência» ao álcool, responsável por doença física, psíquica e social do indivíduo, não tem satisfeito aqueles que encaram o álcool como causa, associada ou não, de outro tipo de patologia, não só individual mas também colectiva, e dizendo respeito à Saúde Pública.

É o caso, por exemplo, das relações do álcool com a condução rodoviária, a criminalidade, a patologia laboral, as perturbações familiares e os seus efeitos sobre a criança – conceção, gestação, aleitamento, desenvolvimento e rendimento escolar.

Riscos

O risco que o álcool representa para a boa saúde infantil e escolar; o risco para a saúde e segurança do trabalhador, da mulher, do jovem, etc. são exemplos que apontam para as vantagens de envolver na designação comum de «Problemas Ligados ao Álcool» (OMS-1980) este vasto e multiforme leque de situações relacionadas com o álcool; vantagens tanto mais intensamente sentidas quanto mais a abordagem diga respeito a ações preventivas.

Ultrapassando largamente o simples «modelo» médico e médico-social de doença alcoólica/alcoolismo, esta perspetiva vem permitir alargar o «espaço» focado, tomar em atenção tudo o que disser respeito a produção-distribuição-consumo-publicidade-legislação de álcool e bebidas alcoólicas e, consequentemente, multiplicar as estratégias da intervenção, exigindo a multidisciplinaridade na mesma.

Entre as numerosas definições que se ficaram a dever à OMS, destaca-se a que considera o alcoolismo como doença e o alcoólico como doente, fazendo referência a extensas repercussões do mal, para além das respeitantes diretamente ao indivíduo e à possibilidade de tratamento.

Pela sua importância e significado, faz-se a sua transcrição:

«Alcoolismo não constitui uma entidade nosológica definida, mas a totalidade dos problemas motivados pelo álcool, no indivíduo, estendendo-se em vários planos e causando perturbações orgânicas e psíquicas, perturbações da vida familiar, profissional e social, com as suas repercussões económicas, legais e morais;»

«Alcoólicos são bebedores excessivos, cuja dependência em relação ao álcool se acompanha de perturbações mentais, da saúde física, da relação com os outros e do seu comportamento social e económico. Devem submeter-se a tratamento.»

Em 1982, é ainda a Organização Mundial de Saúde que, num documento de trabalho preparado para as «Discussões Técnicas sobre Alcoolismo», que tiveram lugar no âmbito da 35.ª Assembleia Mundial de Saúde, em Genebra, refere:

«Problemas ligados ao álcool, ou simplesmente problemas de álcool, é uma expressão imprecisa, mas cada vez mais usada nestes últimos anos para designar as consequências nocivas do consumo de álcool. Estas consequências atingem não só o bebedor, mas também a família e a coletividade em geral. As perturbações causadas podem ser físicas, mentais ou sociais e resultam de episódios agudos, de um consumo excessivo ou inoportuno, ou de um consumo prolongado.»

Esta perspetiva alargada ultrapassa já o simples conceito de Alcoolismo como doença, alvo de cuidados médicos. Os problemas ligados à dependência alcoólica, se bem que extensos e graves, «não representam senão uma pequena parte de todos os problemas ligados ao álcool».

Mais do que uma ciência nova, a Alcoologia, tal como foi apontado por Fouquet, é uma nova forma de perspetivar um problema complexo e vasto, uma forma de abordagem diferente, mais atual e mais adequada.

Como definir, então, a Alcoologia?

Alcoologia «Disciplina consagrada a tudo aquilo que diz respeito ao álcool etílico, quanto a: produção, distribuição, consumo normal e patológico e implicações deste, suas causas e consequências, quer a nível individual (orgânico, psicológico e espiritual), quer a nível coletivo (nacional e internacional, social, económico e jurídico).

«Esta disciplina, autónoma, serve-se, para instrumento de conhecimento, das principais ciências humanas, económicas, jurídicas e médicas, encontrando na sua evolução dinâmica as suas próprias leis.» (P. Fouquet)

Fontes: Álcool e problemas ligados ao álcool em Portugal – Mª Lucília Mercês de Mello | José Barrias | João Breda

Pin It on Pinterest

Share This