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A panturrilha, a tíbia e o perónio

A panturrilha, a tíbia e o perónio

Eles se localizam entre o joelho e o tornozelo. Já vimos que o joelho representa a porta da Aceitação. O tornozelo é, por sua vez, a porta da Decisão, ou seja, o ponto de passagem no mundo das posições e do real adquirido. Quando temos uma ideia nova que vem do fundo das nossas memórias (Não-Consciente) e que nós tenhamos aceitado (joelho), devemos integrá-la aos nossos conceitos conscientes de relação com o mundo, aos nossos critérios de vida ou ao nosso ideal de vida. Se essa integração for difícil, vamos vivenciar tensões, sofrimentos, cãibras na panturrilha (barriga da perna), ou uma fratura na tíbia e/ou no perónio. Estamos na parte do corpo que precede ou segue o pé, segundo o sentido da circulação das energias que nós escolhemos (Densificação ou Libertação). Essa pode ser a fase de passagem das memórias, medos, desejos ou vivências, do Não-Consciente para o Consciente (sentido joelho-pé). Então estamos no processo de Densificação, no momento que segue à Aceitação consciente e que precede a integração deles ao real (tornozelo, pé). Porém também pode se tratar da passagem do Consciente para o Não-Consciente (sentido pé-joelho). Estamos, nesse caso, no processo de Libertação, no momento que precede a Aceitação não-consciente e que segue à Aceitação deles no real.

Os males da panturrilha, da tíbia ou do perónio

Eles vão nos falar das nossas dificuldades para aceitar as mudanças que a nossa vivência pode impor às vezes aos nossos critérios exteriores de vida. A nossa dificuldade para mudar de opinião ou de posição sobre um ponto de vista habitual da nossa relação com o mundo pode se manifestar através de uma dor nessa região da perna, e chegar até mesmo à fratura. Ela se produz quando a tensão é forte demais e quando as nossas posições se encontram tão enraizadas, plantadas no solo, que não podem admitir a torção imposta pelo exterior. Então é a tíbia ou o perónio, ou até mesmo ambos, que “rompem”. Porém a simples “rigidez” da panturrilha já significa que sentimos dificuldade para “agir”, para dar ao tornozelo e ao pé a possibilidade de cumprirem o seu papel de mobilidade, de potencial de mudança de ponto de apoio na vida. É dessa dificuldade, por exemplo, de que nos falam os pontos de ciática que se manifestam nessa parte da perna. Nesse caso, naturalmente, sempre se trata de uma ciática, com toda o seu significado de base, porém também com a fineza da expressão através dos gémeos.

Se a tensão se manifestar na panturrilha esquerda, está relacionada com a dinâmica Yang (pai). É Clotilde que tenho agora em mente. Essa pessoa, que frequentou alguns dos meus estágios de desenvolvimento pessoal, tinha-me vindo consultar a respeito de um problema de dor ciática na perna esquerda, que era mais dolorosa na sua pantorrilha. Já tendo trabalhado comigo, encontrou “facilidade” para chegar rapidamente ao problema que ela não aceitava na sua vida e de que se procurava libertar dessa forma. O seu patrão atual, chefe de uma PME (pequena/média empresa) e verdadeira caricatura paternalista, estava a “obriga-la” a mudar a sua maneira de trabalhar e a forçá-la a formar alguém para ajudá-la, enquanto, por múltiplas razões (e medos), ela era decididamente autónoma, até solitária. A tensão foi liberada em uma sessão, mas se transportou quase que imediatamente para a sua coxa e o seu quadril, pois percebeu que o seu patrão também estava tentando traí-la; na realidade, ele queria substituí-la pela outra pessoa, que lhe parecia mais fácil de “manejar”. Assim sendo, tivemos que fazer um trabalho de liberação desse quadril, tanto no plano psíquico, naturalmente, como no plano psicológico.

Se a tensão se manifestar na panturrilha direita, ela está relacionada à dinâmica Yin (mãe). Vou referir-me aqui ao caso de Claudine, que já me havia consultado a respeito de outros problemas e que me veio ver, recentemente, devido a uma tensão do tipo ciática na perna direita e, em especial, num trajeto sob o joelho. Eu lhe expliquei, trabalhando sempre com o seu corpo e as suas energias, a significação potencial dessa dor. Ela se pôs a chorar baixinho e me explicou que estava passando por uma situação difícil no seu trabalho. Devia tomar uma decisão importante para a sua carreira, sofrendo pressões nada insignificantes por parte da sua empresa (mãe). No entanto, estava encontrando muita dificuldade para aceitar essa decisão e, por conseguinte, para tomá-la, pois, por causa dessa decisão, devia abandonar alguém que ela “protegia” e que corria o risco de “sofrer” muito com a sua “partida”.

Podemos ilustrar e resumir tudo o que diz respeito à parte “baixa” do nosso corpo, nas nossas pernas, no esquema que segue. Ele permite que visualizemos de forma simples o que acontece e como isso acontece.

Cada vez que temos tensões nessa parte inferior, isso é sinal de que na nossa relação no que diz respeito ao outro (desejo, vontade, impossibilidade, incapacidade, medo etc.) ou a nós mesmos passamos por uma tensão equivalente, seja ligada à nossa suposta incapacidade, ou a uma incapacidade vinda do exterior. Estamos diante de uma atitude, de um papel ou de uma posição na qual não podemos, não sabemos ou não conseguimos ser.

Do Livro Diga-me onde dói e eu te direi por quê de Michael Odoul

A coxa e o fémur

A coxa e o fémur

A coxa  situa-se entre o quadril e o joelho. Um relato mais detalhado sobre o que essas duas articulações representam já foi feito anteriormente. Lembremos simplesmente que o quadril e a bacia representam o inconsciente relacional. Eles representam a “porta do Não-Consciente”, que eu chamo de “Porta da Integração”, o ponto de emergência, o ressurgimento do nosso Não-Consciente na sua ligação relacional com o mundo e com os seres (de entre os quais nós mesmos). O joelho é, por sua vez, a “porta, a barreira da aceitação”. A coxa, construída ao redor do fémur, representa o que há entre os dois e o que os une. Pode se tratar da projeção da fase de passagem das memórias, dos medos ou dos desejos, do Não-Consciente para o Consciente. Nós nos encontramos então no processo de Densificação, no momento que precede a sua aceitação consciente. Porém também pode ser a passagem do Consciente para o Não-Consciente. Estamos então no processo de libertação, no momento que segue à sua aceitação consciente e que precede a não-consciente.

Os males da coxa e do fémur

As memórias ou feridas inconscientes profundas de um indivíduo que vêm à tona e que ele se recusa a aceitar vão se manifestar através de tensões na coxa (ponto doloroso, cãibra, ponto de ciática localizado etc.), até mesmo de uma fratura do fémur, quando a lembrança, a memória que vem à superfície é forte demais ou quando ela transtorna a estrutura (osso) das crenças pessoais ou das escolhas de vida da pessoa.

No sentido inverso, podem se referir a vivências e às experiências que o indivíduo aceitou no seu Consciente, no seu mental, mas que não pode ou ainda não está pronto para aceitar dentro de si. Esse pode ser o caso de alguém que teve que ceder em alguma coisa que considerava importante para si (promoção social, trabalho, casa, país, por exemplo) e que compreendeu e aceitou no seu mental. No entanto, bem no fundo de si mesmo, não o aceita. Apesar de todas as razões lógicas que fizeram com que compreendesse as coisas, ele se recusa a integrá-las. Se a dor ou o traumatismo se localizar no fémur, isso significa que a tensão está ligada à estrutura profunda, às crenças e aos valores inconscientes da pessoa. Se, por outro lado, ela se localizar na coxa, nos músculos, estamos diante de uma manifestação menos “grave”, porque está menos enraizada na estrutura.

Se a tensão, a dor ou a fratura for na coxa direita, vai se tratar de alguma coisa relacionada ao Yin, a simbologia materna, e todas as suas representações. Vou citar, por exemplo, o caso específico de um amigo que devia, por razões económicas, vender a sua casa. Ele sabia que era necessário, até mesmo obrigatório. Essa necessidade estava clara na sua cabeça e ele havia aceitado mentalmente todas as razões, com as quais concordava muito à vontade quando falávamos no assunto. O único problema era que, havia vários anos, ele vinha hospedando a sua mãe numa parte dessa casa e lhe era absolutamente inconcebível aceitar a ideia de lhe dizer que ele próprio ia ter de vender o imóvel, e ela ia ter que partir. Ele expulsava a sua tensão através de repetidas e, às vezes, violentas dores que se irradiavam entre a sua nádega direita, a sua coxa direita e o seu joelho direito, de acordo com o seu estado psicológico e o grau de aceitação interior.

Se, por outro lado, a tensão, a dor ou a fratura se localizar na coxa esquerda, estará relacionada com o Yang, a simbólica paterna, e todas as suas representações. Tal foi o caso do Pascal. Ainda criança, ele fraturou o fémur esquerdo quando tinha 16 meses. Como as circunstâncias da época não estão suficientemente claras na memória, é difícil determinar o que havia por trás dessa fratura’ muito rara em tal idade. Muitos anos depois, ele perdeu o seu pai num acidente de trânsito. Ele se recusou então a “ver” as coisas e teve um problema grave no olho esquerdo, que desapareceu praticamente de uma hora para outra quando os médicos decidiram operá-lo para “ver o que havia”, pois os exames não mostravam patologia ou lesão alguma. A sua relação com toda a simbologia paterna, quer dizer, a hierarquia, a autoridade e o seu próprio posicionamento enquanto homem, encontrava-se inconscientemente afetada por esse desaparecimento. Alguns anos mais tarde, enquanto passava por uma difícil situação de fracasso no campo afetivo, na sua condição de homem, ele teve um acidente de trânsito enquanto estava sozinho, no qual fraturou novamente o fémur esquerdo. Esse acidente “levou” a sua família a descobrir a profundidade do seu desespero, desespero esse que ele não podia nem expressar, nem reconhecer, nem admitir por si próprio. A memória emocional que emergia era forte demais para ser “reconhecida”, daí a fratura do fêmur. Vivendo o dia-a-dia, ele ia deixando progressivamente a sua vida derivar, parecendo obedecer a uma programação interior suicida, já bem iniciada. Havendo chegado ao “fim do caminho”, terminou por aceitar em ir para um centro de repouso a fim de interromper essa dinâmica e poder tentar se reconstruir. Nesse dia, houve uma reviravolta na sua vida. Na verdade, ele encontrou aquela que ia se tornar a sua mulher e lhe restituir a sua imagem de homem. Ele tinha 34 anos e meio, exatamente a mesma idade que o seu pai quando morreu…

Do Livro Diga-me onde dói e eu te direi por quê de Michael Odoul

Os dedos dos pés

Os dedos dos pés

Representam as terminações “finas” desses pontos de apoio. Eles são os “detalhes”, o “acabamento” desses pontos e, assim, as terminações das nossas posições, os detalhes das nossas crenças ou as pontuações das nossas atitudes relacionais. Cada dedo representa, por sua vez, um detalhe particular, um modo ou uma fase específica que descodificamos graças ao meridiano energético que termina ou começa no dedo em questão. Enquanto elemento periférico e de acabamento da relação, ele permite que o indivíduo se sirva dele como se fosse um meio de feedback, de retroação. Graças a cada um dos pés e aos pontos energéticos que se encontram na extremidade deles, o indivíduo pode estimular ou eliminar, inconsciente porém eficazmente, as tensões eventuais que ali se encontrem.

Assim sendo, os dedos dos pés são, como os das mãos, ao mesmo tempo os lugares e os meios que favorecem múltiplos pequenos atos “falhos” cotidianos, que nos parecem ocasionais e sem significado. Porém, na realidade, nunca é por acaso que queimamos, esmagamos ou torcemos tal ou qual dedo do pé. Trata-se cada vez de um processo “leve”, porém claro, de uma busca de expressão e/ ou eliminação de uma tensão relacional. Esse processo pode existir porque o ponto energético que se encontra na extremidade de cada um dos dedos dos pés se chama “ponto fonte” ou “ponto da Primavera”. É o ponto do renascimento potencial da energia, graças à qual uma nova dinâmica pode aparecer ou através da qual a antiga pode se “recarregar” e mudar de polaridade.

Os males dos dedos dos pés

Vou fazer aqui uma simples apresentação da significação global de cada um dos dedos dos pés e dos sofrimentos que vão ser expressos. Para compreender mais detalhadamente toda a dinâmica que está por trás disso, basta se referir, nesta obra, à parte que diz respeito ao meridiano energético exato que atinge o dedo em questão e ao qual ele imprime a sua dinâmica geral. Se a tensão se manifestar num dedo do pé direito, estará relacionada à simbólica Yin (materna); num dedo do pé esquerdo, à simbólica Yang (paterna).

O dedo grande do pé (o ”polegar” do pé)

É o único dedo do pé em que começam dois meridianos energéticos: o do Baço e Pâncreas e o do Fígado. É o dedo de base do nosso suporte relacional, do que nós somos. É por isso que, durante a menopausa (perda da fecundidade, logo, do valor feminino), frequentemente testemunhamos o desenvolvimento de uma deformação desse dedo do pé que se chama Hallus valgus. Os traumatismos ou as tensões nesses dedos significam que sentimos uma tensão equivalente na nossa relação com o mundo, seja no plano material (parte interna do pé), ou no plano afetivo (parte externa do pé).

O segundo dedo do pé (o “indicador” do pé)

É o dedo em que se encontra o meridiano do Estômago, ou seja, aquele que gera a nossa relação com a matéria, a nossa digestão dessa matéria. As bolhas, os joanetes, males ou traumatismos nesse dedo vão nos falar da nossa dificuldade para gerar certas situações materiais ou profissionais.

O terceiro dedo do pé (o dedo “médio” do pé)

Não há meridiano orgânico nesse dedo do pé mas ele tem uma relação “indireta” com o Triplo Aquecedor. Logo, é o dedo do pé central, aquele do equilíbrio e da coerência das nossas atitudes relacionais. Os males desse dedo significam então que temos dificuldade para equilibrar as nossas relações, especialmente no que diz respeito ao futuro. O medo de seguir adiante, e de uma forma justa, pode ser expresso por esse dedo.

O quarto dedo do pé (o “anular” do pé)

É o dedo do pé em que se encontra o meridiano da Vesícula Biliar. Ele representa os detalhes das nossas relações com o mundo, no sentido do justo e do injusto, da busca pela perfeição. A presença de tensões, cãibras ou sofrimentos nesse dedo significa que vivemos uma situação relacional difícil quanto ao que é justo ou injusto. Trata-se de uma relação que não nos satisfaz no que diz respeito às condições e à qualidade dessas condições.

O dedo pequeno do pé (o dedo mínimo do pé)

O dedo pequeno do pé é o dedo no qual termina o meridiano da Bexiga. É o meridiano da eliminação dos líquidos orgânicos e das “memórias antigas”. Quando batemos com esse dedo, o que é extremamente doloroso, procuramos eliminar memórias antigas ou esquemas relacionais antigos. Provavelmente estamos tentando mudar hábitos antigos, modos de relação com o mundo e com o outro que não nos satisfazem mais. Através do traumatismo e do sofrimento (corpo, ferida, entorse etc.), estimulamos nossas energias para facilitar essa eliminação dos modos antigos a fim de substituí-los por outros.

Do Livro Diga-me onde dói e eu te direi por quê de Michael Odoul

O pé

O pé

 

É o nosso ponto de apoio sobre o solo, a parte na qual todo o nosso corpo repousa e confia quando se trata de mudanças, de movimentos. É ele que nos permite “crescer”, e por conseguinte avançar, mas pode também bloquear os nossos suportes, e por conseguinte manter firmemente as nossas posições. Logo, o pé representa o mundo das posições, a extremidade manifestada da nossa relação com o mundo exterior. Ele simboliza as nossas atitudes, as nossas posições declaradas e reconhecidas, o nosso papel oficial. Não devemos colocar o pé na porta para bloqueá-la. Ele representa os nossos critérios quanto à vida, até mesmo os nossos ideais.

Trata-se da chave simbólica dos nossos suportes “relacionais”, o que explica a importância do ritual de lavagem dos pés em todas as tradições. Tal coisa purificava a nossa relação com o mundo, até mesmo com o divino. Enfim, é um símbolo de liberdade, pois possibilita o movimento. Aliás, não é por acaso que os pés das meninas eram enfaixados na China. Sob o pretexto de uma significação erótica e estética, na verdade, isso permitia que a mulher ficasse fechada, aprisionada num mundo relacional de dependência diante do homem, limitando o seu potencial de mobilidade. Aliás, o mesmo fenómeno existe nas nossas sociedades ocidentais em que as mulheres “deviam” usar salto agulha para corresponder a um determinado esquema. Como que por acaso, foi possível constatar que a altura dos saltos dos sapatos diminuía proporcionalmente a “liberdade” sucessiva das mulheres. Hoje em dia, mais e mais mulheres, sobretudo as gerações jovens, só usam salto baixo.

 

Os males do pé

Eles exprimem as tensões que sentimos em relação às nossas posições diante do mundo. Eles querem dizer que há falta de fidelidade, estabilidade ou segurança nas nossas atitudes habituais, nas posições que sustentamos ou que adotamos. Aliás não é o que dizemos de alguém que não está tranquilo, que tem medo ou que não ousa declarar as suas opiniões ou posições – que ele “está andando de fininho” – ou, mais corriqueiramente, que alguém que se abstém, ou cujas posições atuais o colocam numa má situação que ele “está tropeçando nos próprios pés”? – Enfim, não é o que dizemos de alguém que não sabe que atitude tomar em relação a uma situação (relacional), que ele fica sem saber onde pisar?

Quando a tensão se manifesta no pé direito, ela está relacionada com o Yin (mãe), e quando está localizada no pé esquerdo, está relacionada ao Yang (pai). Aqui é o caso da Judith que me vem à mente. A mãe dessa criança de 9 anos trouxe para uma consulta, pois a menina sofria de uma neurodistrofia no tornozelo e no pé esquerdo, e o diagnóstico dos médicos previa que ela “acabaria” numa cadeira de rodas. Essa afeção óssea, especialmente profunda e reconhecida como sendo de origem “somática”, é tão dolorosa às vezes que pode levar algumas pessoas ao suicídio.

O que acontecia com Judith? Ela acabara de perder o seu pai, morto brutalmente. No entanto, esse pai que era tão importante, nos últimos tempos, vinha destruindo a sua imagem aos olhos da Judith, pois “procurava” o álcool para “resolver” alguns problemas.

Diante disso, Judith começou a sentir dores no tornozelo esquerdo quinze dias antes da morte do seu pai. Seu pai acabou decidindo “partir” completamente e Judith não soube mais onde se encontrava nem sobre o que se apoiar. Não havia mais um pai em quem “confiar”, não havia mais a representação da força, na medida em que a sua imagem começava a se dissipar.

Judith fez a mesma coisa com o seu tornozelo e o seu pé esquerdo que começaram a se desmineralizar. Fizemos um trabalho de desdramatização e, depois, de reconstrução da memória emocional, como também um trabalho importante de reequilíbrio das suas energias. Diante da urgência e da importância da manifestação, eu a confiei, paralelamente, a um amigo e médico homeopata que determinou um tratamento remineralizante fundamental e também a uma amiga que a ajudou com um trabalho de orto-bionomia.

Depois de quinze dias, Judith encostou as suas muletas e voltou à escola para grande surpresa do médico responsável, que teve a “psicologia” de acusá-la de simulação, pois, do contrário, era impossível que pudesse voltar a andar. Foram necessárias duas sessões a mais para interromper a reincidência que se seguiu a tamanha atitude “negativa” vinda de uma pessoa vista como capaz de representar “a autoridade” (simbólica paterna).

Do Livro Diga-me onde dói e eu te direi por quê de Michael Odoul

O tornozelo

tornozelo

O tornozelo

 

Ele é a terceira e última articulação maior, que gera a mobilidade entre o pé e o resto da perna. O tornozelo é a articulação da perna que lhe dá a sua fineza de mobilidade, particularmente quando o pé está parado, posicionado no solo, porém também quando está em movimento. É graças a ele que podemos “crescer” sobre os nossos apoios no solo (pés) para avançar melhor e mais rápido. É a outra extremidade da perna. O quadril representa a articulação básica das estruturas e das referências inconscientes da relação, enquanto o tornozelo representa a articulação final e exteriorizada, ou seja, as referências e suportes conscientes das nossas relações com o mundo. Ele representa a articulação das nossas posições, das nossas crenças reconhecidas e estabelecidas em relação aos outros e a nós mesmos. Ele é a “barreira dos nossos critérios quanto à vida” e simboliza, enfim, a projeção da nossa capacidade para “decidir”, para dar início às decisões e às mudanças (de posições, de critérios) na nossa vida e para nos envolvermos nas coisas. É a “porta da Implicação”  no sentido da decisão. A estabilidade e a mobilidade dos nossos apoios sobre o solo (que simboliza a realidade), assim como a flexibilidade e a desenvoltura deles, dependem dos nossos tornozelos. Eles vão ser, por conseguinte, a projeção fiel da estabilidade, da rigidez ou da flexibilidade das nossas posições e dos nossos critérios quanto à vida.

 

Os males dos tornozelos

As entorses, as dores e os traumatismos dos tornozelos vão falar-nos das nossas dificuldades quanto às relações na medida em que nos falta estabilidade ou flexibilidade no que diz respeito a elas. Eles demonstram que atravessamos uma fase na qual as nossas posições, os nossos critérios quanto à vida, a maneira como nós nos “colocamos” em relação ao outro não nos convêm, não nos satisfazem mais e nós encontramos dificuldade para mudá-las, para “agir”. Há falta de flexibilidade ou de desenvoltura, de estabilidade ou de “realismo” nessas posições. Nós nos obrigamos então a fazer uma paragem, pois não podemos mais continuar, avançar nessa direção. A posição que temos ou que mantemos não é boa e precisamos mudar de ponto de apoio, de critério – chamado de “objetivo” de referência, ou seja, de crença “exterior”, conscientemente admitida e reconhecida. As tensões e os sofrimentos nos tornozelos podem significar também que temos dificuldade para decidir alguma coisa, de tomar uma decisão importante na nossa e pela nossa Vida, provavelmente porque essa decisão possa colocar em questão uma posição atual que nos parece ser satisfatória.

Se a tensão estiver no nível do tornozelo direito, estará relacionada à dinâmica Yin (materna). Vou referir-me aqui a um cliente que se chama Peter. Ele tinha vindo se consultar a respeito de dores no tornozelo direito, no calcanhar de Aquiles direito. Praticante assíduo de jogging, isso o incomodava enormemente e lhe impedia mesmo, às vezes completamente, de se entregar ao seu relaxamento preferido. Ora, sua esposa era uma pessoa extremamente ansiosa e nervosa e criava, involuntariamente e sem más intenções, tensões emocionais fortes no seio de toda a família e, particularmente, com as suas duas filhas. Peter encontrava cada vez mais dificuldade para aceitar essa situação e não “sabia bem onde pisar”, que posição tomar em relação à sua esposa para que ela compreendesse e pudesse se acalmar. Paralelamente, também vivenciava tensões fortes na sua empresa. Estavam acontecendo reestruturações e ele não sabia que atitude adotar em relação às mudanças estruturais que iam se instalar. Os dois eixos mais importantes da dinâmica Yin, a mulher e a empresa, estavam então em questão, de uma maneira aberta, oficial e reconhecida.

Se for o tornozelo esquerdo, a tensão estará relacionada com a simbólica Yang (paterna). É o que aconteceu com Jacques ou então com Françoise, que haviam torcido o tornozelo esquerdo, um porque o seu superior na escala hierárquica, com idade avançada, não conseguia “passar o posto”, e porque ele não sabia como lhe dizer tal coisa; e a outra porque o seu filho se drogava, porque ela encontrava muita dificuldade para reconhecer esse fato e porque não sabia que atitude tomar diante dele e do mundo exterior.

Do Livro Diga-me onde dói e eu te direi por quê de Michael Odoul

O joelho

joelho

O joelho

É a segunda articulação da perna, aquela que serve para dobrar, ceder, para ficar de joelhos. É a articulação da humildade, da flexibilidade interior, da força profunda, ao contrário do poder exterior, que gera a rigidez.

Ele é o sinal manifestado do alívio, da aceitação, e até mesmo da rendição e da submissão. O joelho faz o papel de “portal da Aceitação”. Ele é o complemento, a continuação do quadril, prolongando a mobilidade deste, porém no sentido inverso.

De fato, o quadril é uma articulação que só pode se curvar para frente, enquanto o joelho só se curva para trás. Ele traduz então a capacidade de romper, de ceder, até mesmo de recuar. É também a articulação que faz a alternância entre o Consciente e o Não-Consciente.

Representa assim a Aceitação de uma emoção, de uma sensação, de uma ideia que emerge do Não-Consciente em direção ao Consciente – se estivermos durante o processo de Densificação – ou, mesmo, o inverso, uma ideia que ande em direção a esse Não- Consciente após o Consciente – se estivermos durante o processo de Libertação. É a articulação maior da relação com o outro e da nossa capacidade de aceitar o que essa relação implica em termos de abertura, até mesmo de compromisso (eu não disse comprometimento) (1).

 

Os males do joelho

É fácil deduzir que quando sentimos dor no joelho isso significa que temos dificuldade para ceder, para aceitar uma certa experiência vivida. Estamos no nível das pernas, logo a tensão é de ordem relacional com o mundo exterior ou interior, com os outros ou consigo mesmo. As dores, os problemas “mecânicos” nos joelhos significam que uma emoção, uma sensação, uma ideia ou uma memória ligada à nossa relação com o mundo não está sendo aceite, está até mesmo sendo recusada.

Trata-se de alguma coisa que é vivenciada no Consciente e que transtorna, confunde, perturba as nossas crenças interiores e que nós recusamos interiormente. Pode se tratar, por outro lado, de uma emoção, de uma sensação ou de uma memória que emerge do Não-Consciente (mensagem do Mestre Interior) e que temos dificuldade para “aceitar”, para integrar no nosso quotidiano, no nosso Consciente, pois elas perturbam, transtornam as crenças ou os “costumes” reconhecidos e estabelecidos.

Se for o joelho direito, a tensão está relacionada com a simbólica Yin (materna). Podemos retomar aqui o exemplo que citei anteriormente, daquele homem que se feriu no joelho direito durante um jogo de futebol, na época em que acabara de receber a carta de pedido de divórcio da sua mulher, divórcio esse que ele não aceitava.

Há também um caso pessoal tão significativo quanto este. Há alguns anos, eu praticava assiduamente o aikido com o meu professor daquela época. Em Paris, havia construído com alguns amigos um dojo magnífico, pelo qual havíamos dado o nosso sangue e colocado em perigo, alguns de nós, as nossas estruturas familiares e sociais, pois essa construção estava em primeiro lugar e nos tornava “indisponíveis” para muitas outras coisas.

Pouco depois do final dessa realização, da qual nos sentíamos particularmente orgulhosos, as relações com a estrutura que representava a associação se degradaram. Mas, no fundo, eu não podia aceitar as mensagens que viviam chegando e me mostravam que o meu caminho junto a ela havia terminado. Encontrava muita dificuldade para aceitar essa ideia, depois de tudo o que havia investido nela, apesar da vivência de “traição” que se associava a todo o resto.

Foi o meu joelho direito que “rompeu” e me obrigou a parar com tudo, não só os cursos que eu ministrava como também os que estava fazendo. Uma entorse dupla se deu de forma quase que medíocre durante um aquecimento de aikido, ao passo que eu já vinha sofrendo do joelho há várias semanas. Eu não podia “entender” que a minha relação com a associação e a sua dinâmica “familiar” chegava ao fim.

Essa tensão, mais as que foram produzidas no meio familiar durante a construção do dojo, levaram-me até a entorse, ao mesmo tempo em que eu tinha um problema de deslocamento do meu quadril direito (vivência de traição). Assim, eu “obriguei-me ” a deixar essa associação, essa representação materna. Depois de uma reflexão difícil, acabei compreendendo a mensagem. Apesar da “gravidade médica”, pude retomar a minha prática rapidamente  noutro lugar, e o meu joelho direito se refez perfeitamente e me permitiu voltar ao aikido, mesmo que eu não esteja sempre com o meu tempo voltado para essa direção atualmente.

Se for o joelho esquerdo, a tensão está relacionada à simbólica Yang (paternal). Vou considerar o exemplo de uma jovem. Françoise, que me veio consultar por queixas genéricas de “mal-estar”. Durante a conversa que tivemos, foi apurado que ela sofria do joelho esquerdo.

Diante a minha pergunta, que consistia em saber se vivia uma tensão relacional com um homem, depois de me olhar como se eu fosse um feiticeiro, ela reconheceu atravessar uma fase difícil com o seu namorado, em que não aceitava mais o seu comportamento em relação a ela. Então, lhe expliquei a relação que podia existir entre o seu joelho e as suas tensões relacionais com um homem.

Após alguns instantes de reflexão, ela exclamou: “Então é isso! É verdade, pois, alguns anos atrás, eu vivia com um rapaz que me havia causado o mesmo problema e também tinha tido fortes dores no joelho esquerdo, que desapareceram pouco depois de nos separarmos.” Naturalmente eu lhe propus uma reflexão sobre por que ela revivia a mesma experiência e por que o seu corpo soava o alarme. Assim pudemos determinar rapidamente as coordenadas do seu “mal-estar”.

Nota: 1 Aqui o autor se refere a uma outra leitura da palavra joelho em francês: “genou” também viria a ser “jenous”,em que “je” = eu e “nous” = nós. (N.T.)

Do Livro Diga-me onde dói e eu te direi por quê de Michael Odoul